Justiça climática inclui acesso à climatização diante do calor extremo

Conceito relaciona mudanças climáticas, desigualdade e direitos humanos e amplia a responsabilidade do setor HVAC-R na oferta de refrigeração e climatização acessíveis, eficientes e de menor impacto ambiental.
O calor atinge toda a população, mas a capacidade de proteção varia conforme renda, moradia, ocupação profissional e acesso à energia, água e transporte. Essa diferença está no centro do conceito de justiça climática, que analisa como os impactos das mudanças do clima e os recursos para enfrentá-los são distribuídos entre países, territórios e grupos sociais.
No Acre, a recorrência de períodos de calor extremo levou o Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) a chamar a atenção para essas desigualdades. Famílias de maior renda conseguem recorrer com mais facilidade a ambientes climatizados, veículos com ar-condicionado e abastecimento regular de água. Parte da população, porém, vive em imóveis com pouca ventilação, reduz o uso de ventiladores por causa do custo da energia ou enfrenta dificuldades no acesso à água.
As condições de trabalho também interferem na exposição. Trabalhadores rurais, da construção civil e do mercado informal podem permanecer ao ar livre ou em locais sem controle de temperatura, enquanto parte dos profissionais que atua em ambientes fechados dispõe de climatização. A desigualdade aparece ainda nos deslocamentos, principalmente em pontos de ônibus sem sombra e veículos lotados.
Justiça climática significa colocar a equidade e os direitos humanos no centro das decisões sobre mitigação e adaptação às mudanças climáticas. O conceito considera que populações que contribuíram menos para o aquecimento global podem sofrer consequências mais graves e contar com menos recursos financeiros, técnicos e institucionais para se proteger.
Sua origem está ligada ao movimento por justiça ambiental, que ganhou projeção nos Estados Unidos durante a década de 1980. Um dos marcos ocorreu em 1982, quando moradores de Warren County, na Carolina do Norte, protestaram contra a instalação de um depósito de resíduos contaminados em uma comunidade de maioria negra. O episódio ajudou a demonstrar que danos ambientais e instalações poluidoras não eram distribuídos de maneira uniforme.
A expressão “justiça climática” passou a ser empregada para aplicar essa discussão às causas e consequências das mudanças do clima. Em 1999, um relatório da organização CorpWatch fez um dos primeiros usos documentados do termo. Em 2000, organizações sociais realizaram a primeira Cúpula de Justiça Climática, paralelamente à COP6, em Haia, nos Países Baixos. Em 2002, os Princípios de Bali de Justiça Climática relacionaram o tema a direitos sociais, participação pública e responsabilidades históricas.
Para o setor HVAC-R, essa discussão tem aplicação direta. Climatização, refrigeração e conservação de alimentos e medicamentos são recursos de adaptação ao calor, mas seu acesso depende do preço dos equipamentos, do consumo de energia, das condições das edificações e da disponibilidade de profissionais para instalação e manutenção.
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) estima que mais de 1 bilhão de pessoas não têm acesso adequado ao resfriamento. Mulheres, idosos, trabalhadores ao ar livre, agricultores familiares e moradores de habitações com baixo desempenho térmico estão entre os grupos mais expostos. O organismo classifica o resfriamento como infraestrutura essencial, ao lado de serviços como água e energia.
A expansão do acesso, contudo, precisa ocorrer sem ampliar o problema climático. Segundo o Pnuma, a capacidade global de resfriamento poderá mais do que triplicar até 2050. Caso o crescimento siga o padrão atual, as emissões relacionadas ao setor poderão subir de 4,1 bilhões para 7,2 bilhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente no período.
A resposta envolve combinar projetos arquitetônicos que reduzam a carga térmica, ventilação e sombreamento com equipamentos eficientes, sistemas híbridos, manutenção adequada e redução do uso de fluidos refrigerantes de alto potencial de aquecimento global. De acordo com o Pnuma, esse caminho pode ampliar o acesso ao resfriamento e reduzir em 64% as emissões projetadas para 2050.
Para fabricantes, projetistas, instaladores e técnicos, incorporar a justiça climática significa considerar não apenas a capacidade e o desempenho do equipamento, mas também o custo de operação, a eficiência energética, a segurança, a durabilidade e as condições reais de quem utilizará o sistema. Também envolve dimensionar corretamente, evitar perdas de refrigerante e orientar o consumidor sobre operação e manutenção.
Essa perspectiva não transforma o ar-condicionado em solução isolada para o calor extremo. Ela insere o HVAC-R em um conjunto de medidas que inclui planejamento urbano, edificações adaptadas, arborização, segurança hídrica, fornecimento de energia e políticas de proteção social. O ponto central é garantir que o acesso à proteção térmica não fique restrito a quem possui maior renda.
A justiça climática mostra, assim, que enfrentar o aquecimento global não depende apenas de reduzir emissões. Também requer definir quem terá acesso às soluções de adaptação, quem participará das decisões e como os custos da transição serão distribuídos. Para os profissionais do HVAC-R, essa consciência passa pela oferta de climatização e refrigeração que sejam, ao mesmo tempo, acessíveis, eficientes e compatíveis com os limites ambientais.
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Resumen (español)
La justicia climática reconoce que los efectos del cambio climático y los recursos para enfrentarlos no se distribuyen de manera equitativa. Para el sector HVAC-R, el concepto implica ampliar el acceso a la climatización y la refrigeración mediante equipos eficientes, mantenimiento adecuado, menores emisiones y costos de operación compatibles con la realidad de las poblaciones más expuestas al calor extremo.
Summary (English)
Climate justice recognizes that the effects of climate change and the resources available to address them are not distributed equally. For the HVAC-R sector, the concept involves expanding access to cooling and refrigeration through efficient equipment, proper maintenance, lower emissions and operating costs suited to the conditions of populations most exposed to extreme heat.





