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Hidrocarbonetos saíram na frente

01/08/2006

Num momento em que assuntos como Protocolo de Montreal, proteção da camada de ozônio, efeito estufa e boas práticas no manuseio dos Clorofluorcarbonos (CFC’s) chegam a ser triviais no mundo do Frio, a cada dia entram em cena novos nomes e siglas com grande potencial de também ocupar mentes e bocas no setor.
Um deles, com certeza, é o R-600a, forma como se conhece internacionalmente o isobutano, um hidrocarboneto de grande sucesso na refrigeração doméstica européia e que já dá claros sinais, também por aqui, de ser um forte candidato à substituição gradativa dos Hidrofluorcarbonos (HFC’s) nos equipamentos saídos de fábrica.
A seu favor pesam aspectos como melhor rendimento termodinâmico, menor volume na hora da carga e, principalmente, o GWP (índice de contribuição ao agravamento do efeito estufa) abaixo de cinco, combinado a um ODP (grau de agressão à camada de ozônio) nível zero.

No campo das barreiras, porém, incluem-se a flamabilidade do gás, limitação de seu uso para grandes volumes, necessidade de investimentos em mão-de-obra e a impossibilidade de ser considerado um drop-in em sistemas já existentes.

Decisão pioneira

Há cerca de um ano a Bosch Eletrodomésticos assumiu publicamente no Brasil uma postura anunciada por sua matriz alemã no início da década de 1990, em atendimento aos apelos do Greenpeace por um fluido refrigerante inofensivo à natureza.

Anunciada pela indústria como a segunda geração de refrigeradores ecológicos, pelo fato de não utilizar CFC tampouco HFC, linhagem na qual ainda reina de forma quase absoluta no mercado brasileiro o R134a, a Glass Line Style Ecológico KSV44 é um família composta por dois Frost Free e seis combinados normais.

“Já estamos começando a desenvolver freezers verticais e, em breve, a linha de refrigeradores de uma porta também vai ser produzida aqui em Hortolândia com o gás R600a”, informa o gerente de Desenvolvimento de produtos da BS Continental
Eletrodomésticos Ltda., Denis Tamborlin.

E tudo isso, segundo ele, tende a ser feito sem muitos traumas. “O sistema de refrigeração é bem similar ao empregado quando se usa R134a, R12 ou qualquer outro refrigerante. O que muda mesmo, em função do isobutano, é o compressor”, explica Denis.

Parte dessas alterações técnicas se deve ao fato de as pressões de trabalho serem bem inferiores quando se usa o R600a. “A resistência mecânica dos componentes também é menor”, assegura o engenheiro mecânico.

Em contrapartida, a dimensão dos pistões precisa ser maior, porque é necessário mais volume deslocado para a mesma capacidade, o que acaba gerando limitações de espaço.
Por exemplo, um compressor de 1000 BTU para R134a é fácil de encontrar no mercado, só que para o R600a isso se torna extremamente difícil, em virtude da falta de espaço físico dentro da carcaça para a colocação dos pistões. Já a pressão de condensação no R134a é de quase 15 bar, enquanto se trabalha com 7.5, exatamente a metade, ao usar o isobutano”, explica o profissional.

Como na construção de um compressor o volume é definido pelos fatores curso e diâmetro e o curso tem sempre um limite, a saída é variar no diâmetro do componente.
Em compensação, com maior deslocamento volumétrico a troca de calor também aumenta, ampliando a eficiência do conjunto em cerca de 3%.

Outro fator de economia, só que no campo das matérias-primas empregadas, envolve a utilização de capilares de menor comprimento, porém com vazão 20% maior.
Quanto ao custo do compressor em si e do próprio refrigerante ainda há vantagens nítidas para o HFC, uma questão que Denis atribui à pouca escala que o uso do isobutano ainda apresenta no País.

Cuidados especiais
Uma questão igualmente lembrada quando se fala em R600a é a sua propriedade de inflamar.

Os cuidados básicos diante dessa característica incluem manter maçaricos distantes de possíveis pontos de vazamento, sempre fazer expurgos em ambientes bem ventilados e, para garantir o melhor desempenho possível, nunca errar a mais ou a menos na hora da carga, algo em torno de 90 gramas, contra os 240 consumidos por um aparelho convencional.

Um empurrão considerável para que não passe de um mito a possibilidade de um refrigerador simplesmente explodir de uma hora para outra fica por conta da pequena quantidade de gás em seu interior — “menos do que num isqueiro”, intervém Denis – e também nas normas internacionais da série IEC, às quais se submetem todos os equipamentos do gênero produzidos no mundo.

Segurança elétrica chega a ser uma obsessão nesse ponto, que é testado exaustivamente para garantir a ausência de gás concentrado perto de fontes de faíscas do próprio aparelho, e não do ambiente em si. É o caso de interruptores, termostatos e relês. O mesmo ocorre com os evaporadores aparentes, que precisam ser reforçados para evitar problemas diante da condenável e ainda recorrente prática de se raspar o congelador ou freezer com facas e outros objetos pontiagudos.

Quanto à manutenção, se por um lado não há a necessidade de recolher o gás remanescente num aparelho durante sua manutenção, por outro a substância só pode ser liberada em ambiente aberto, ou então com a ajuda de uma mangueira de no mínimo 5 metros, prática usual na Europa, onde o isobutano domina o mercado já há um bom tempo.

Igualmente importante, segundo a BS Continental, é ter sempre em mente a possibilidade de haver resíduos no compressor ou no óleo.
“Mesmo tendo feito um pré-vácuo antes de abrir o sistema, você tira o filtro secador e ainda pode ver uma pequena chama. É preciso esperar um pouco, até a queima total”, observa Denis.

Tudo isso exigiu da indústria atenção redobrada no treinamento de sua rede credenciada, atualmente composta por cerca de 1.800 técnicos espalhados pelas principais cidades brasileiras.

No entanto, mais do que possuir ferramentas especiais e um bom kit de segurança, o profissional precisa estar bem informado para trabalhar corretamente com o R600a.
De acordo com Carlos Eduardo Barbosa, supervisor de Tecnologia e Treinamento da BS Continental, além de uma programação de cursos presenciais, a empresa conta com uma ferramenta de e-learning, na qual há um filme de cerca de meia hora, explicando detalhadamente todo o processo de operação com o R600a.

Além de divulgar esses cuidados, a ferramenta controla a freqüência, a nota de avaliação que o técnico tirou e formula múltiplas questões sorteadas, para que as perguntas não se repitam no caso de ele ter de passar por uma segunda prova.

Gás de sobra
Com base no fornecimento de R600a que tem feito regularmente para a rede de assistência técnica da BS Continental no Brasil e em outros países sul-americanos, além das negociações já mantidas com nomes como Fricon, Metalfrio, Electrolux e Mabe, essa última no México, Ricardo Liutkus é outro que revela otimismo sobre o tema.
“Eu acho que a tendência desse mercado aqui no nosso continente é seguir os passos da Europa, onde 80% dos refrigeradores já funcionam com o R600a”, justifica o diretor comercial da Milano Técnica, empresa que tem trazido para o Brasil isobutano da marca Nevada, envazado pela Mariel, casa matriz da Milano na Itália.

“Se o protocolo de Kyoto for avante, creio que, num prazo de 5 anos, chegaremos lá”, acrescenta Liutkus.

Embora só tenha importado cerca de 2 mil cilindros de 420 gramas cada em cerca de nove meses atendendo à rede de assistência técnica da BS Continental, ele aposta na rápida multiplicação desses números, pois o que deve diminuir mesmo nesse campo são os custos.

A previsão vale tanto para o gás, cujo preço do quilo oscila, hoje, em torno de R$ 120,00, assim como para a linha de instrumentos e acessórios essenciais ao manuseio seguro da substância, uma linha que sua empresa também comercializa. “É uma questão de escala, que deverá ser resolvida automaticamente à medida que o consumo aumentar”, prevê ele, mesmo reconhecendo que as embalagens pequenas — por questão de segurança — constituem um fator natural de encarecimento, assim como a própria importação

Suas perspectivas positivas incluem outro item, o propano (R290), segundo ele, mais indicado para refrigeração comercial em virtude de sua maior pressão de trabalho.

Outras possibilidades
Tão fortes quanto os indícios de que o isobutano tende a crescer no mercado brasileiro tem sido a efervescência dos debates e o clima generalizado de indefinição sobre o futuro global dos fluidos refrigerantes.

Já estariam avançados os estudos, por exemplo, rumo ao surgimento de uma nova versão do HFC R134a com GWP inferior a 150, contra os seus 1300 atuais, número determinante para que a substância já tenha seu phase-out previsto no setor automotivo europeu.

Mas o gerente de Marketing América Latina — Fluorquímicos da DuPont, Maurício Xavier um incrédulo assumido quanto a verdades absolutas neste campo, relembra: “em 2002, enquanto 84% das emissões agravantes do efeito estufa nos Estados Unidos eram provenientes do CO2, emanado de escapamentos e chaminés, não mais do que 2% ficavam por conta dos fluidos halogenados”.

Por isso ele valoriza as análises à luz do perfil econômico de cada país e das diferentes aplicações e condições de uso para este ou aquele refrigerante.

Até mesmo por reconhecer que todos os halogenados e hidrocarbonetos apresentam prós e contras característicos e, por isso mesmo, são passíveis de ter seus papéis reavaliados mediante a combinação de uma série de fatores.

Por isso, o executivo da DuPont ainda identifica um espaço considerável para a amônia e o próprio CO2. “Mas até um equipamento que não prejudique a camada de ozônio nem agrave o efeito estufa, além de ser fácil e seguro de operar, pode ter sua validade questionada, caso consuma energia em excesso ao longo do tempo”, acrescenta Maurício ao demonstrar o quanto considera multifacetada a questão.

Diante dos 70 mil supermercados brasileiros, a maioria utilizando o HCFC R22, e um parque igualmente considerável de aparelhos domésticos e comerciais com o HFC R134a no seu interior, o presidente do Grupo Ozônio, Paulo Neulaender Jr, também acredita num modelo próprio a ser seguido pelo Brasil, cenário no qual identifica os hidrocarbonetos como uma possibilidade apenas a médio e longo prazo.

Prova disso, segundo ele, é o atual projeto do governo federal de retirar do mercado cerca de 12 mil geladeiras que ainda utilizam R12, doando igual número de aparelhos abastecidos com R134a.

A preocupação que o profissional considera de fato prioritária nos dias de hoje é a procedência dos fluidos na fase de transição em curso.

“Tem muito produto de má qualidade vindo para cá e isso requer que o mercado verifique atentamente detalhes como o lacre, a etiqueta e o laudo de análise de cada cilindro comprado”, adverte, lembrando ainda que sempre vale a pena desconfiar quando alguém oferece por R$ 20,00 um produto que, na verdade, custa 50% mais.
Uma das fraudes muito comuns, segundo ele, é a venda de fluido com índice de umidade até 10 vezes acima das 10 PPM — partes por milhão previstas pela norma técnica da área, sem falar em embalagens que dizem trazer determinado produto no seu interior, mas na verdade acondicionam outro, de valor bem menor.

Com base nas fiscalizações das quais vem participando Brasil afora, Maria Zélia Machado de Carvalho, do Ibama, corrobora a gravidade do quadro ao apontar casos de comerciantes e profissionais autônomos que acabam comprando CFC em embalagem descartável procedente da Argentina. A motivação é a mesma dos que trocam gato por lebre na tentativa de levar vantagem, mas com o agravante de se estar cometendo, neste caso, um crime ambiental.

Instrumental renovado
Com bons conhecimentos na cabeça e malas de ferramentas adequadas, empresas e profissionais da área de manutenção não devem temer o crescimento, aparentemente inevitável, do isobutano na refrigeração brasileira.

É o que pensa, por exemplo, André Eduardo Corrêa de Oliveira, supervisor Técnico Comercial da Vulkan do Brasil Ltda.

A escala do R600a, segundo ele, é cinco vezes menor do que a utilizada com o R134a, em virtude da menor pressão de trabalho. Isso requer que o profissional adquira um novo jogo de instrumentos, disponível hoje no mercado apenas através de importação e ao custo médio de R$ 350,00.

Outra necessidade para o profissional que queira trabalhar com o produto é ter uma balança de precisão (capacidade de 2 kg com um grama de tolerância) para evitar erros na carga, muito comuns quando se utiliza como parâmetro apenas o item pressão. “Esse procedimento é errado, até mesmo com outros fluidos, mas torna-se mais grave ainda no caso do isobutano, onde qualquer quantidade a maior ou menor colocada no sistema pode causar uma grande diferença no rendimento do aparelho”, adverte.

Também, no seu entender, a utilização de lokring, pelo menos na selagem do tubo de processo, para evitar as línguas de fogo e conseqüentes queimaduras nos técnicos, é altamente recomendável.

Em que pesem os aparentes complicadores em volta desse novo mundo chamado isobutano, a Vulkan, empresa sediada na capital paulista e cuja Divisão de Refrigeração atua no Brasil desde 1989, enxerga esse mercado com nítido entusiasmo. “A chegada desses novos fluidos gera boas oportunidades de negócios para a nossa empresa e também para os próprios profissionais do setor, que tendem a especializar-se mais ainda, afastando de vez os aventureiros do mercado”, prevê Eduardo.

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