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Informação ao usuário, novo paradigma na Qualidade do Ar de Interiores

01/02/2014

São muitas as normas, portarias e até mesmo teses acadêmicas mostrando ao profissional do HVAC o que deve ser feito, com o auxílio do seu trabalho, em prol do conforto e, sobretudo, da saúde respiratória dos ocupantes de um prédio. Uma gama de equipamentos e um contingente igualmente expressivo de trabalhadores, nos mais diversos níveis, têm se mobilizado nesta direção. Dificilmente, no entanto, tal grau de conscientização alcança os usuários das edificações, cuja percepção relativa à Qualidade do Ar de Interiores (QAI) raramente vai além da temperatura, recorrente motivo de controvérsia entre quem sente mais frio ou calor, notadamente nos ambientes de trabalho.

Intrigado com essa conhecida realidade, o pesquisador do Laboratório de Engenharia Térmica e Ambiental e professor da Escola Politécnica da USP, Antônio Luis Campos Mariani, resolveu levantar uma bandeira.

Para o também instrutor do Programa Smacna de Educação Continuada em tratamento de ar, o público leigo deve ser informado, de maneira padronizada e inequívoca, sobre os parâmetros desejáveis para o ar que ele respira, seja nos lugares frequentados regularmente ou naqueles por onde apenas esteja passando.

Seria algo no estilo das plaquetas informando a carga máxima permitida nos elevadores, uma providência aparentemente singela e para alguns até inócua, “mas vai saber quantos acidentes esses avisos já ajudaram a prevenir?”, questiona o professor.

Nos locais de trabalho, por exemplo, ele acredita que isso evitaria um set point à mercê das preferências ou humores do superior hierárquico, tampouco o gosto pessoal dos mais persuasivos, mas sim determinado pelas condições ideais previstas nas normas vigentes (ABNT, ANVISA e Ministério da Saúde), conforme as características do local, sua ocupação e as atividades nele desenvolvidas.

Ainda no campo das ideias, porém com o mérito de ter chamado a atenção durante uma das mesas redondas do último CONBRAVA, a teoria de Mariani se baseia no papel educativo da informação e, caso um dia vingue, talvez possa ser objeto de norma técnica ou legislações ordinárias, válidas para estados e municípios. Embora inexistam recursos técnicos para a aferição in loco de fatores como a metragem cúbica existente na captação de ar externo, a simples leitura dessa necessidade num aviso pode levar alguém a perceber, de imediato, se as providências mínimas para tal foram tomadas. Por exemplo, a existência de alguma passagem de ar interligando o lado de fora ao de dentro. “Mais ainda, a pessoa poderá se lembrar desse aspecto na hora de climatizar sua própria casa”, acrescenta o professor, em alusão a um dos preceitos da QAI mais menosprezados, no seu entender, quando se adquire um split ou condicionador de janela: a necessidade sempre existente de renovação do ar, seja qual for a modalidade instalada.

BASTIDORES

Oculto ou aparente, o verdadeiro perfil atmosférico dos ambientes é fruto de uma equação complexa, na qual se combinam normas europeias, americanas e suas versões brasileiras. Tudo isso catalisado pelo fator humano, fiel da balança em praticamente todas as questões de ordem técnica e operacional.

Um quadro emblemático do gênero é apontado por Wili Colozza Hoffmann, da Klimatu Engenharia, ao descrever a gênese da obra concebida da forma adequada, mas que depois acaba sendo desvirtuada no tocante à QAI.

“Muitas vezes são instalados filtros e demais componentes corretos, plenamente de acordo com o projeto, mas no momento do TAB (Testes, Ajustes e Balanceamento) a tomada do ar externo se encontra simplesmente fechada. Ou então, mesmo aberta, não se faz a devida medição, o que também pode impedir a captação do ar externo no volume necessário”, exemplifica o engenheiro.

Uma situação nitidamente agravada, segundo ele, à medida que a ocupação do prédio se adensa , podendo muitas vezes originar nos ambientes de trabalho – justamente onde se permanece a maior parte do tempo – o aumento no índice de absenteísmo, dificuldade de concentração e até mesmo a ocorrência de desmaios, devido a problemas como a alta concentração de CO².

O especialista explica ainda que esse gás é um importante ‘traçador’, ou seja, sua presença em demasia quase sempre indica a existência de vários outros elementos nocivos no ar.

Por sua vez, o atual presidente da Sociedade Brasileira de Meio Ambiente e Controle da Qualidade do Ar de Interiores (Brasindoor) considera bem maior a conscientização existente hoje neste campo, envolvendo os responsáveis pela administração e manutenção de prédios públicos e privados. Mas Amadeu Paulo de Campos Jorge lembra não se tratar apenas de um louvável exercício de livre arbítrio.

”Cuidar da qualidade do ar interior é uma questão legal, quem não o faz está sujeito às penalidades estabelecidas pela Portaria 3523/98, do Ministério da Saúde, que prevê de multa a fechamento do estabelecimento infrator por parte da ANVISA/COVISA”, observa.

Para um futuro próximo, porém, ele defende a atualização dos parâmetros atualmente estabelecidos em torno do tema, cuja importância ressalta ao frisar que passamos 80% de nossas vidas em ambientes fechados.

No âmbito dos cuidados elementares para que uma boa QAI possa cumprir seu papel de melhorar a própria qualidade de vida das pessoas, Campos Jorge enfatiza a contratação de empresas de manutenção de ar condicionado que apresentem sempre um Plano de Manutenção, Operação e Controle (PMOC) assinado por engenheiro mecânico responsável, e que atenda plenamente às exigências e periodicidades estabelecidas pelas normas técnicas da ABNT, bem como aos parâmetros estabelecidos pela RE-09/2003, da ANVISA.

NOVIDADES

Segundo Leonardo Cozac, presidente do Departamento de Qualidade do Ar de Interiores da Abrava (Qualindoor), estudos internacionais mostram que cuidar da QAI pode aumentar em até quatro vezes a produtividade das pessoas, além de reduzir o absenteísmo e as custas médicas.

Dados assim justificam a busca constante por novidades tecnológicas capazes de atenuar problemas crônicos persistentes na área, envolvendo desde a instalação dos sistemas até as suas rotinas cotidianas de manutenção e limpeza.

Na parte relativa a tratamento do ar, a fotocatálise é apontada pelo engenheiro como uma tecnologia emergente, repleta de boas possibilidades. “Pode ser uma alternativa ao aumento no consumo de energia com a simples renovação do ar externo”, exemplifica.

Novas metodologias, mais rápidas e precisas, para a identificação da bactéria Legionella em águas nas edificações também já estão disponíveis no mercado brasileiro, de acordo com o especialista, a exemplo de filtros de ar com maior eficiência e menor perda de carga.

Outro ponto favorável no combate a fatores que acabaram celebrizando um termo menos usado atualmente, porém ainda muito forte na memória de todos no setor – a chamada Síndrome do Edifício Doente -, estaria na conscientização crescente dos profissionais da área, combinada ao aumento da fiscalização sanitária nos ambientes de uso coletivo, na avaliação de Cozac.

Mas ele define como grande desafio remanescente fazer com que fabricantes, projetistas e instaladores de sistemas de ar condicionado não se preocupem apenas com os custos iniciais e a demanda de energia de suas obras, “mas também com a saúde das pessoas”, defende.

“No mundo de hoje, com tanta fonte de informação, acredito que as exigências técnicas não sejam atendidas apenas e tão somente por opção, sendo que bons profissionais e empresas [aqueles que optam por fazer o certo neste campo] sempre serão destaque no mercado”, conclui o presidente da Qualindoor.

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