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Crise do gás natural já preocupa o setor

01/06/2006

A grande nuvem que paira sobre as cabeças dos empresários envolve, basicamente, dois aspectos: o provável aumento de preços e a conseqüente perda de competitividade de um combustível tido por muitos como excelente alternativa, sobretudo num país onde o apagão de 2001 ainda está bem fresco na memória de todos.

De concreto, porém, em meio ao tiroteio de informações e das próprias negociações diplomáticas em curso, o que se tem são os números que refletem a verdadeira representatividade do gás natural para o setor de HVAC-R.

Segundo o presidente da Abrava, Carlos Eduardo Trombini, por mais promissor que pudesse parecer mesmo antes de toda essa crise, o combustível ainda representa apenas 3% da malha energética do setor, cabendo ao Estado de São Paulo o consumo de 75% de todo o volume de gás procedente da Bolívia para as mais diversas aplicações.

A sugestão dele é que o empresário aproveite esse momento para refletir e traçar cenários para diferentes realidades de custo ao longo dos próximos anos, pois só assim poderá avaliar com maior segurança se vale à pena continuar acreditando no gás natural ou então apostar até mesmo na geração hidráulica tradicional que, apesar das ameaças de escassez alardeadas por muitos, não é tão vulnerável a fatores externos como o gás e o petróleo.

Já para Eduardo Moraes, gerente de Desenvolvimento e Implantação de Projetos da Comgás, a atual conjuntura envolvendo o combustível e os dois países não altera os investimentos planejados para o decorrer deste ano.

Em 2005, segundo ele, a companhia investiu R$ 497 milhões, e os aportes no atual exercício devem ficar ao redor dos R$ 400 milhões. “Não acredito que essa crise possa prejudicar a distribuição do gás no país, porque se a Bolívia não vender para o Brasil vai vender para quem?”, questiona.

O atual contrato mantido entre a Companhia e a Petrobras vai até 2019 e isso é encarado por Moraes como um respaldo significativo, seja qual for o rumo do atual conflito de interesses entre os países vizinhos.

Na opinião de Arnaldo Basile, diretor comercial da Armacell, a crise com a Bolívia fará com que o governo brasileiro se capacite e desenvolva de maneira mais rápida a exploração de gás no próprio país. “Os projetos para exploração de gás no Brasil terão que ser adiantados, mesmo que a questão política seja resolvida. Com certeza ninguém mais vai querer depender dessa situação”, pondera o executivo, que embora atue hoje no campo do isolamento térmico, trabalhou com equipamentos a gás nos anos 90.

“Àquela época havia diversos planos, com várias usinas projetadas para usar gás na geração de eletricidade”, acrescenta. Isso tudo, segundo Arnaldo, acabaria ficando no papel, devido às dúvidas quanto ao retorno dos investimentos, numa flagrante incoerência com a pressa do país em buscar alternativas energéticas viáveis.

Basile lembra também que o retorno para investimentos na área do gás natural é de longo prazo, e a adoção de matrizes como esta se arrasta no Brasil “porque ninguém tem certeza do que vai acontecer”, sentencia.

Para Riccardo Diomelli, outro nome conhecido do setor que há anos debate a questão energética, o País foi pego de surpresa com as posições bolivianas. Por isso, ninguém tem um plano “B” previamente estabelecido para a atual situação.

Ainda na opinião do diretor da Ergo Engenharia, o Brasil precisa de uma matriz energética de médio e longo prazos para que os empresários possam tomar decisões confortáveis quanto a que tipo de energia utilizar em seus empreendimentos.

Segundo ele, mais uma vez ficou evidente que imprevistos podem aparecer a qualquer momento, e que o Brasil continua sendo mestre em ser pego de surpresa. E complementa: “empresário é sinônimo de risco. Então, devemos admitir que um empresário sério calcula o risco, coisa que, da forma como o Brasil tem conduzido muitos assuntos que implicam diretamente nos custos, não estão sendo administrados seriamente”, ressalta.

Para Mário Manzoli, da DK Sistemas, empresa que na última Febrava anunciou parceria com a japonesa Sanyo para lançar no Brasil um VRF que substitui a energia elétrica pelo gás natural, não vê motivo para arrependimento diante da atual conjuntura,

“A situação conflitante entre Brasil e Bolívia é muito recente para se prever alguma coisa”, justifica o empresário. “No Brasil até o passado é difícil de prever”, brinca Manzoli, em alusão à célebre frase do jornalista Joelmir Beting. Mas, em sua opinião, não haverá falta de gás natural, embora tudo indique que o preço tenda a aumentar, reprimindo investimentos em instalações usuárias dessa fonte. Nada expressivo, porém, numa área que sempre envolve o longo prazo.

Outro ponto a favor do combustível, em sua opinião, é o risco de nova falta de energia elétrica no País. “A velocidade de resposta quando se expande a infra-estrutura necessária à geração de gás natural supera em muito o ritmo com que sem implanta uma usina hidrelétrica”, exemplifica.

Manzoli lembra ainda que gente bem-informada e competente como o empresário Antonio Ermírio de Moraes acreditou no gás natural a ponto de converter toda a instalação do Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo, para essa fonte de energia.

Para o gerente operacional dos Supermercados Mundial, Mauricio Costinha, o gás natural também continua sendo uma alternativa viável e confiável, que já responde por 15% da geração energética da rede, sobretudo na refrigeração da padaria e no ar-condicionado central, contra 20% do óleo diesel e 65% da eletricidade convencional.

Embora consuma o combustível primordialmente da Bacia de Campos, a empresa fluminense acompanha com cautela e moderação o episódio do gás boliviano. Não descartamos a hipótese desse imbróglio todo nos afetar”, assegura.

ALTERNATIVAS
Com apenas 8% da energia que consome atualmente em suas duas fábricas de São Carlos (SP) sendo gerada pelo gás natural, a Tecumseh vê números mais preocupantes é quando analisa a situação do país como um todo. “A demanda de GN hoje no Brasil é de 50 milhões de metros cúbicos por dia, enquanto a produção não passa dos 26 milhões”, analisa o gerente da Unidade de Serviços da empresa, Mauricio Tadeu Soares da Silva.

Diante das informações pouco conclusivas divulgadas até aqui acerca do caso, a fabricante de compressores herméticos já está à procura de opções para uma futura falta e até mesmo no caso de o combustível, antes muito vantajoso, torna-se proibitivo em função do seu alto custo.

O episódio, na visão do executivo, ganha contornos mais graves ainda quando se pensa que nos próximos três ou quatro anos a possibilidade de uma nova crise energética pode levar o consumo diário de gás natural para a casa dos 100 milhões de metros cúbicos diários.

Caso o Brasil não consiga suprir sua demanda interna, as indústrias terão pela frente combustíveis como o óleo diesel, que além de encarecer a produção faz qualquer ecologista torcer o nariz só de pensar no impacto.

Outra possibilidade seria o GLP “como fonte de energia emergencial nos chillers por absorção a fogo direto”, afirma J.C. Felamingo, da Union Rhac.

Para ele, o gás natural é uma das melhores opções energéticas. Mas lembra que é importante a avaliação da alternativa mais viável para cada caso específico relacionado à produção de eletricidade, vapor ou frio. “Hoje temos a energia solar bastante difundida e a eólica dando seus primeiros passos”, observa.

No entanto, caso haja escassez de gás natural ou aumento de valores, algumas empresas poderiam optar pelo GLP como fonte de energia, o que causaria aumento de demanda e, conseqüentemente, problemas de mercado.

NÚMEROS REVELADORES
Em janeiro último o Brasil consumiu, em média, 42,7 milhões de metros cúbicos de gás por dia, sendo que o setor industrial foi o maior consumidor, com 53,4% desse total. Outros 26,7% foram utilizados por termelétricas para a geração de energia elétrica e 4,2% em co-geração, sendo que 13% foram direcionados para uso automotivo, ficando o restante para comércio e residências.

No caso de São Paulo, a Comgás afirma ter registrado um crescimento de 11,4% na distribuição do combustível no primeiro trimestre deste ano, em relação ao mesmo período de 2005, atingindo 1,1 bilhão de metros cúbicos. Essa expansão fez a receita líquida de vendas e serviços da Companhia chegar a R$ 673,5 milhões, uma alta de 19,2% em relação aos mesmos primeiros três meses do ano anterior.

O segmento com maior demanda foi o industrial, responsável por 79% de todo o gás natural distribuído pela Comgás. Em seguida vieram os segmentos veicular (10,6%); cogeração (4,2%); termogeração (2,1%), residencial (2,1%) e comercial (2%).

Segundo o gerente da empresa, há atualmente 30 mil TR instaladas no Brasil, o dobro do total registrado em 2003.

Só a Embraer instalou mais de 12 mil TR, enquanto a Ambev conta com 1500 TR na sua planta de Jacareí e 1000 TR em Jaguariúna.

TESOURO INEXPLORADO
O Brasil possui trilhões de metros cúbicos de gás natural a ser explorado em Cubatão, no litoral paulista. Sem falar no Rio de Janeiro, onde ainda haveria muito a ser prospectado.

Quem afirma é Antônio Luis de Campos Mariani, professor universitário e pesquisador do LET, o Laboratório de Energia Térmica vinculado à Faculdade de Engenharia Mecânica da Escola Politécnica da USP.

Apesar do aparente otimismo, ele revela-se inconformado com as recentes declarações da Petrobras em torno do tema, pois acha que a estatal não teria trabalhado com afinco suficiente para intensificar a produção na bacia do litoral paulista.

“Caso não tivesse chovido o quanto choveu e o dólar não tivesse caído, certamente teríamos o poço para ser drenado no ano que vem”, pondera o estudioso, ao tentar justificar tanta acomodação.

“Atualmente, dizem que estão viabilizando a obra, e que dentro de dois a três anos teremos gás dessa bacia. O que nos resta é aguardar”, acrescenta Mariani.

Outro sério problema estrutural, na visão do professor, envolve a distribuição, já que do total de gás natural extraído dos poços brasileiros pelo menos uma terça parte é queimada diariamente por falta de gasoduto que leve o produto da plataforma ao continente. Mas quando “apertar o sapato” algo será feito”, prevê.

Para ilustrar a forma nem sempre coerente como a questão energética é encarada no Brasil, ele comenta a tão propalada auto-suficiência brasileira no setor petrolífero. “A qualidade do petróleo extraído aqui não é compatível com as refinarias que o país tem, ou seja, elas estão preparadas para trabalhar com o petróleo do Oriente Médio, que é bem mais leve”, arremata.

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