Como os hospitais garantem a pureza do ar em ambientes críticos

A aplicação rigorosa das normas e o monitoramento contínuo do ar asseguram padrões elevados de segurança, reduzindo riscos microbiológicos em áreas sensíveis dos hospitais

Garantir a pureza do ar em ambientes hospitalares críticos como centros cirúrgicos, UTIs, salas de isolamento, hemodinâmica e áreas de preparo de materiais é essencial para a segurança do paciente e a prevenção de infecções relacionadas à assistência à saúde. No Brasil, esse compromisso é norteado pela ABNT NBR 7256, norma que estabelece os requisitos mínimos para projeto, manutenção e operação dos sistemas de condicionamento de ar e ventilação em estabelecimentos assistenciais de saúde. Mais do que um simples conjunto de regras técnicas, a NBR 7256 funciona como um guia que integra qualidade do ar, engenharia clínica, biossegurança e gestão hospitalar, definindo padrões rigorosos de filtragem, vazão de ar, diferenciais de pressão, controle de temperatura e umidade.

Em ambientes críticos, a interpretação e a aplicação dessa norma são particularmente desafiadoras. A pureza do ar depende da adoção de sistemas de renovação de ar com taxas adequadas de trocas por hora, a instalação de filtros de alta eficiência (HEPA), a criação de barreiras físicas e pressurização específica, quer seja positiva para proteger áreas limpas e negativa para conter contaminantes em ambientes de isolamento. Além disso, a operação contínua com parâmetros dentro dos limites recomendados requer monitoramento em tempo real, calibração de sensores, manutenção preventiva rigorosa e equipes treinadas para responder rapidamente a qualquer desvio que possa comprometer a segurança ambiental.

“Nesse contexto, a NBR 7256 se consolida como o elo que conecta boa engenharia, protocolos clínicos e práticas de controle de infecção hospitalar. Sua aplicação contribui diretamente para reduzir riscos microbiológicos, químicos e particulados, assegurando que cada procedimento, da esterilização de materiais a uma cirurgia de alta complexidade, ocorra em condições ambientais ideais. Ao mesmo tempo, a norma impulsiona a modernização tecnológica dos hospitais brasileiros, estimulando o uso de soluções mais eficientes, sustentáveis e seguras. A UTI é uma área crítica dentro do hospital, pois o paciente que está recebendo tratamento intensivo está geralmente debilitado. São vários fatores que a norma exige que sejam controlados e estejam dentro de parâmetros que garantam que o ar esteja livre de vírus, bactérias e contaminantes. A temperatura deve estar entre 20ºC e 24ºC. A umidade relativa menor de 60% e a absoluta maior 4 g/Kg. A filtragem do ar deve ser classes G4 + F8, sendo que o filtro fino tem que estar depois do ventilador (à montante) da unidade de tratamento de ar. A UTI tem que ser mantida com pressão negativa à sua antecâmara que deve receber o mesmo ar tratado, estando positiva com relação à UTI e ao corredor. Por fim, deve ter a quantidade suficiente de ar de renovação, conforme cálculos que consideram o número de ocupantes da UTI, sendo este ar externo admitido na caixa de mistura da unidade de tratamento de ar, para que seja processado juntamente com o ar que retorna da UTI”, explica o diretor executivo da Traydus, Ricardo Facuri.

Em UTIs de grande porte, como as da Rede D’Or, por exemplo, a qualidade do ar depende de dois fatores:  climatizadores adequados e monitorização contínua do sistema. Como a UTI não exige filtragem HEPA não existe um protocolo de teste de filtros, apenas exigir filtros com certificados de teste em fábrica. Na prática, os hospitais seguem padrões de qualidade do ar e análises periódicas, geralmente realizadas a cada seis meses. Essas avaliações incluem medições microbiológicas, verificação de renovação de ar, CO2, temperatura, umidade e partículas em suspensão. Além disso, a NBR 7256 orienta tecnicamente o funcionamento do sistema de climatização, definindo taxas mínimas de renovação, pressões diferenciais e classes de filtragem, no caso das UTIs, com uso de pré-filtro e filtro fino F8. O sistema de automação também monitora a perda de carga dos filtros e emite alertas de saturação, garantindo a troca no momento correto. Juntos, esses protocolos asseguram ambientes controlados e alinhados às exigências sanitárias. Ou seja, o plano de manutenção tem que estar perfeitamente praticado, a automação controlada principalmente a troca de filtros/ vazões de ar e regularmente a higienização dos equipamentos e dutos deve ser feita.

“O condicionador de ar indicado para UTIs sem dúvida nenhuma são as UTAs (Unidades de Tratamento de Ar). Ao longo dos anos, desenvolvemos uma linha completa de unidades de tratamento de ar com diferentes configurações para atender projetos variados e arquiteturas complexas. Embora existam modelos mais compactos, versões inteligentes e alternativas verticais, todos eles compartilham os mesmos módulos essenciais que compõem uma UTA: caixa de mistura de ar, estágio de pré-filtragem (classe G4), serpentina de resfriamento e desumidificação, seja por expansão direta ou por água gelada, sistema de umidificação a vapor quando aplicável, aquecimento elétrico ou por serpentina de água quente, ventiladores de alta pressão com controle de velocidade e filtragem fina de alta eficiência (classes F8/F9). Além disso, o gabinete dessas unidades precisa garantir excelente estanqueidade, com painéis estruturados de 25 mm ou 50 mm, assegurando desempenho térmico e acústico adequados. Complementarmente, também desenvolvemos fancoletes específicos para aplicações hospitalares, disponíveis nas versões dutadas ou tipo cassete. Esses equipamentos são instalados individualmente, muitas vezes por leito, atendendo à demanda de hospitais cuja infraestrutura não permite a instalação de dutos tradicionais. Contudo, é importante destacar que muitos fancoletes disponíveis no mercado não atendem plenamente aos requisitos de uma UTA hospitalar. No nosso caso, esses fancoletes são projetados para funcionar praticamente como miniunidades de tratamento de ar, com gabinete de fácil higienização, isolamento adequado para instalação no forro e todos os recursos essenciais: caixa de mistura, resfriamento, aquecimento e filtragem compatíveis com as exigências normativas. Por fim, a automação desempenha um papel fundamental. Tanto as UTAs quanto os fancoletes são fornecidos com sistemas automáticos testados e calibrados de fábrica, garantindo que todos os parâmetros ambientais permaneçam dentro dos limites estabelecidos ao longo de toda a vida útil do equipamento. Isso assegura precisão operacional, segurança e conformidade com os requisitos técnicos de ambientes hospitalares críticos”, explica Facuri.

Grandes redes hospitalares brasileiras, como Rede D’Or, se destacam pela adoção de práticas avançadas de manutenção e controle microbiológico do ar

Boas práticas de aplicação

Grandes redes hospitalares brasileiras, como Rede D’Or, Hospital Israelita Albert Einstein e Sírio-Libanês, se destacam pela adoção de práticas avançadas de manutenção e controle microbiológico do ar, garantindo que ambientes críticos permaneçam dentro dos padrões mais rigorosos de segurança. Nessas instituições, o ciclo de qualidade do ar começa pela operação contínua de sistemas de climatização projetados de acordo com as normas. Esses hospitais mantêm equipes multidisciplinares unindo engenharia clínica, manutenção, higiene e infectologia, trabalhando de forma integrada para monitorar, registrar e ajustar os parâmetros ambientais em tempo real.

Uma das práticas mais comuns nessas redes é o monitoramento ativo da qualidade do ar, realizado por meio de sensores, inspeções manuais e auditorias periódicas. Temperatura, umidade relativa, pressão diferencial e níveis de partículas são continuamente avaliados, garantindo que centros cirúrgicos, UTIs, farmácias hospitalares e salas de isolamento permaneçam protegidos contra contaminações cruzadas. A verificação de pressão positiva ou negativa é feita diariamente, muitas vezes com checklists digitalizados e integração com sistemas de automação predial.

No controle microbiológico, essas instituições realizam amostragens de bioaerossóis, sedimentação de placas e coletas de superfícies em cronogramas definidos pela CCIH. Os resultados são acompanhados por microbiologistas e infectologistas que validam a eficácia dos filtros, a adequação da taxa de renovação de ar e a presença de possíveis fontes de contaminação. Quando há irregularidades, protocolos robustos de resposta rápida são ativados desde a higienização imediata de componentes até substituições emergenciais de filtros HEPA.

“A filtragem adequada é um dos pontos mais importantes para a segurança em redes hospitalares porque impede que partículas finas, aerossóis e microrganismos circulem livremente pelo ambiente. O uso combinado de pré-filtros e filtros finos F8 garante a retenção das partículas mais críticas, reduzindo significativamente a carga microbiana no ar. Isso, aliado à renovação constante de ar externo e ao controle de pressão entre ambientes, evita que contaminantes se desloquem para áreas sensíveis ou entre boxes de pacientes. Quando o sistema mantém fluxo, renovação e filtragem dentro dos parâmetros da NBR 7256, o risco de infecções hospitalares associadas ao ar cai drasticamente, protegendo tanto os pacientes quanto a equipa clínica. Nos próximos anos, a filtragem de ar em UTIs tende a ficar muito mais ‘inteligente’ e ativa, combinando diferentes camadas de tecnologia. Além dos filtros mecânicos de alta eficiência, começam a ganhar espaço mídias filtrantes com nanotecnologia, capazes de reter partículas ultrafinas e incorporar materiais antimicrobianos (como prata ou óxidos metálicos) que inativam microrganismos na própria superfície do filtro. Em paralelo, soluções de purificação complementar por UV-C em dutos ou unidades de tratamento de ar vêm sendo testadas e normalizadas por entidades como ASHRAE, com capacidade de alcançar altas taxas de inativação de patógenos em passagem única e redução progressiva da carga microbiana ao longo do tempo. Tecnologias de fotocatálise também despontam como opção para degradar compostos orgânicos e microrganismos, com estudos específicos em ambientes críticos como UTIs e unidades de cuidados intensivos. Tudo isso tende a ser integrado a sistemas de monitoramento contínuo via IoT e algoritmos de manutenção preditiva, que acompanham em tempo real a perda de carga dos filtros, qualidade do ar e desempenho do sistema, permitindo intervenções mais rápidas e assertivas, com impacto direto na redução do risco biológico para pacientes e equipas clínicas”, diz Facuri.

UTAs (Unidades de Tratamento de Ar) possuem diferentes configurações para atender projetos variados e arquiteturas complexas para ambientes hospitalares

Importância da manutenção

As atividades de manutenção também seguem rotinas extremamente rigorosas. Os hospitais realizam limpeza periódica das UTAs, dutos e serpentinas, utilizando produtos e metodologias compatíveis com ambientes hospitalares. Filtros G4, M5, F8/F9 e HEPA são trocados conforme cronograma e monitoramento de perda de carga. Além disso, a calibração sistemática de sensores, a verificação de estanqueidade de gabinetes e o balanceamento de vazão garantem que cada sistema opere dentro dos parâmetros projetados.

Segundo Facuri, o ideal é ter pressostatos diferenciais que enviam sinais avisando que os filtros estejam saturados. “Os filtros G4 devem ser trocados mensalmente, ou somente monitorados com manômetros localmente na unidade de tratamento de ar. Já o F8 como são filtros caros e sensíveis, o ideal que ser monitorados via automação com pressostatos ou transdutores de pressão que indicam a perda de carga ‘on time’ e permitem ao sistema supervisório avisar o mantenedor o momento da troca. Logicamente que na inspeção visual que o mantenedor deve fazer quinzenalmente ou pelo menos mensalmente, para limpeza, ele verifique visualmente a integridade dos filtros, pois a perda de carga pode estar baixa, por ele ter se rompido”.

Na sua visão, os maiores desafios ainda são mão de obra especializada e disponibilidade de filtros. “O hospital deve manter uma grande quantidade de filtros em estoque, disponíveis para a troca no momento certo. Logicamente, isso tem um custo financeiro e logístico elevado. Por vezes, chega o momento da troca e não tem disponibilidade. Então a troca ocorre 40, 60 dias depois do momento correto. A qualidade da manutenção é um desafio enorme também, pois exige profissionais ou empresas qualificados e responsáveis, que tenham o cuidado absoluto com o sistema. Claro que estes dois fatores encarecem a operação do hospital, mas o gestor tem que levar em conta que se não troca filtro consome mais energia, então uma coisa anula a outra em termos financeiros. Mas, o mais grave é o risco dos pacientes e equipe médica. Se alguém sofre uma infecção hospitalar, o custo para hospital pode ser maior ainda com diversas demandas jurídicas e de imagem. Estamos falando de vidas, e no setor público não tem como negociar custo quando colocamos vidas em risco”.


Resumen (Español)

La garantía de la pureza del aire en ambientes hospitalarios críticos es un factor central para la seguridad del paciente y la prevención de infecciones asociadas a la atención sanitaria. En Brasil, este control está orientado por la norma ABNT NBR 7256, que define requisitos técnicos para el diseño, operación y mantenimiento de los sistemas de climatización y ventilación en hospitales, con énfasis en filtración, renovación de aire, presiones diferenciales, temperatura y humedad.

El texto muestra cómo grandes redes hospitalarias aplican monitoreo continuo, mantenimiento riguroso y automatización para asegurar la calidad del aire en UTIs y áreas sensibles. También aborda tendencias tecnológicas, como filtros avanzados, UV-C, fotocatálisis e integración con IoT, destacando que la correcta aplicación de las normas y la capacitación técnica siguen siendo decisivas para reducir riesgos microbiológicos y proteger vidas.


Summary (English)

Ensuring air purity in critical hospital environments is essential for patient safety and infection prevention. In Brazil, this process is guided by ABNT NBR 7256, which establishes technical requirements for the design, operation, and maintenance of HVAC systems in healthcare facilities, covering air filtration, renewal rates, pressure differentials, temperature, and humidity control.

The article highlights how major hospital networks rely on continuous monitoring, preventive maintenance, and automation to maintain air quality in ICUs and other sensitive areas. It also points to emerging technologies such as advanced filtration media, UV-C disinfection, photocatalysis, and IoT-based monitoring, emphasizing that strict compliance with standards and qualified maintenance remain critical to minimizing biological risks in hospital settings.