Segurança em altura salva vidas no HVAC-R

Da análise de risco ao plano de resgate, especialistas destacam que investir em segurança significa proteger vidas e garantir a qualidade das operações.
Veja a edição completa
Visualizar em PDF
Instalações e manutenções em fachadas, coberturas e telhados fazem parte da rotina de muitos profissionais de refrigeração e climatização. No entanto, trabalhar em altura continua sendo uma das atividades com maior potencial de acidentes graves e fatais no setor. Nesse cenário, a NR-35 – Trabalho em Altura do Ministério do Trabalho, estabelece requisitos mínimos para planejamento, organização e execução das atividades, priorizando a prevenção de riscos e a preservação da vida.
Mais do que utilizar os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), como cinturão de segurança, talabartes, capacete com jugular e trava-quedas, óculos de segurança ou protetor facial, o trabalho seguro exige avaliação criteriosa do ambiente, uso de Equipamentos de Proteção Coletiva (EPCs), análise de risco, permissão de trabalho e um plano de resgate preparado para situações de emergência.
O crescimento da climatização em edifícios residenciais, comerciais e industriais também ampliou a exposição dos profissionais aos trabalhos em altura. Instalações de condensadoras em fachadas, coberturas e áreas de difícil acesso fazem parte da rotina do setor e, quando executadas sem planejamento, figuram entre as atividades de maior risco. O próprio Manual da NR-35 destaca que as quedas de altura estão entre as principais causas de acidentes graves e fatais no trabalho, enquanto estudos recentes sobre gestão de riscos em instalações de ar-condicionado apontam falhas recorrentes como ausência de sistemas de ancoragem, deficiência nos procedimentos de acesso, falta de Permissão de Trabalho (PT) e de Análise de Risco (AR), além do uso inadequado de EPIs.
A preocupação não é apenas teórica. Embora o Brasil não disponha de estatísticas específicas para acidentes envolvendo técnicos de HVAC-R, os registros de ocorrências mostram que quedas durante instalações e manutenções de aparelhos de ar-condicionado em fachadas, telhados e coberturas continuam sendo frequentes, muitas delas com vítimas fatais. Em julho de 2025, por exemplo, um técnico de refrigeração morreu ao cair de aproximadamente 18 metros enquanto realizava a manutenção de uma condensadora na área externa de um edifício residencial em Recife (PE). O Ministério do Trabalho reforça que as quedas em altura figuram entre as principais causas de acidentes graves e fatais no ambiente laboral, o que evidencia a importância do cumprimento rigoroso da NR-35 e do planejamento prévio de cada intervenção.

Sidney de Souza Junior, gerente do Departamento Técnico do CRT-SP
Segundo Sidney de Souza Junior, técnico em refrigeração e climatização e gerente do Departamento Técnico do Conselho Regional Técnico – CRT-SP, a queda de altura continua sendo a principal causa de acidentes fatais, mas não é o único perigo enfrentado pelos técnicos.
“Queda de altura, queda de objetos e ferramentas, choque elétrico, condições climáticas adversas, estruturas instáveis, esforço físico e postura inadequada, além de cortes e esmagamentos durante o manuseio dos equipamentos, estão entre os principais riscos encontrados nas atividades em altura”, informa.
O especialista ressalta que a prevenção começa muito antes da subida ao telhado ou à fachada. A NR-35 determina que toda atividade seja precedida por uma Análise de Risco (AR), realizada no próprio local de trabalho e envolvendo os profissionais responsáveis pela execução.
“A AR deve ser feita no local, com quem vai executar e documentada. É preciso descrever a atividade, identificar os perigos, avaliar os riscos, definir as medidas de controle e estabelecer um plano de emergência. Não podem ser negligenciados fatores como a condição estrutural do ponto de ancoragem, a proximidade de redes elétricas, as condições climáticas durante toda a execução, o acesso seguro e rota de fuga, o estado de conservação dos equipamentos e a experiência da equipe”.
Ele descreve um passo a passo:
- Descrever a atividade: O que será feito, onde, por quanto tempo, quantas pessoas.
- Identificar os perigos: Altura, energia, clima, estrutura, acesso, materiais.
- Avaliar os riscos: Probabilidade x Severidade.
- Definir medidas de controle: EPC, EPI, procedimentos, pessoas envolvidas.
- Plano de emergência: Como agir se algo der errado.
Treinamento e plano de resgate
Outro aspecto frequentemente negligenciado é o plano de resgate. Muitas empresas concentram seus esforços na prevenção da queda, mas esquecem que uma vítima suspensa pelo cinturão pode sofrer a chamada síndrome do arnês em poucos minutos.
“O plano de resgate é obrigatório pela NR-35. De nada adianta evitar a queda se o trabalhador ficar suspenso por trauma de suspensão. O plano deve prever procedimento escrito, equipe treinada, equipamentos de resgate, comunicação eficiente e tempo-resposta de até seis minutos”, revela.
Um dos principais exemplos no setor é o trabalho desenvolvido pelo casal Gisieli e Luis Severo, proprietários da Severo Climatização. Referências nacionais em segurança para trabalhos em altura, eles foram pioneiros na aplicação do alpinismo industrial ao mercado de HVAC-R e hoje atuam na capacitação de profissionais em todo o Brasil. Por meio de treinamentos em trabalho em altura, acesso por corda, técnicas de resgate e disseminação da cultura de segurança, contribuem para elevar o nível técnico do setor e reforçar que a prevenção deve estar presente em todas as etapas das instalações e manutenções, preservando vidas e promovendo práticas cada vez mais seguras.
“A segurança começa antes mesmo de colocar o cinturão. Planejamento, análise de risco, escolha correta dos pontos de ancoragem e treinamento contínuo são fatores que fazem a diferença entre voltar para casa ou sofrer um acidente. Nenhum serviço é tão urgente que justifique abrir mão da segurança”, destacam Luis e Gisieli.
Nos treinamentos promovidos pela Severo Climatização, a segurança é tratada como um valor inegociável. Enquanto Luís conduz a capacitação técnica em trabalho em altura e acesso por corda, Gisieli atua como socorrista e instrutora, reforçando os procedimentos de resgate e prevenção de acidentes. A empresa adota critérios rigorosos, exigindo que todos os profissionais possuam capacitação conforme a NR-35, além de manter seguro de vida para seus colaboradores. A qualificação em trabalho em altura também é um requisito para contratação, refletindo o compromisso da empresa com a segurança desde a formação da equipe. Paralelamente, Gisieli ministra palestras sobre prevenção de acidentes e cultura de segurança para empresas e instituições, contribuindo para disseminar boas práticas e conscientizar profissionais sobre a importância do planejamento e do cumprimento das normas em atividades realizadas em altura.
Para Sidney, criar uma verdadeira cultura de segurança depende do envolvimento de toda a organização.
“A cultura começa com a liderança pelo exemplo, passando para a participação do trabalhador nas análises de risco, treinamento contínuo, fornecimento de EPIs de qualidade e comunicação aberta para interromper uma atividade insegura são medidas que fazem a diferença. Se for difícil fazer o trabalho de forma segura, o profissional vai improvisar”.
A tecnologia também vem transformando a segurança em altura. Linhas de vida retráteis que travam mais rápido e dão mais mobilidade, ancoragens permanentes e definitivas instaladas na obra para facilitar manutenções futuras, drones para inspeções prévias de fachadas e coberturas sem expor ninguém, aplicativos digitais para emissão de Permissão de Trabalho (PT) e Análise de Risco, além de EPIs mais leves e ergonômicos, já fazem parte da realidade de muitas empresas.
Segundo Sidney, as principais tendências e avanços em equipamentos, tecnologias e procedimentos são:
- Wearables (sensores vestíveis): Coletes que medem queda, batimento e enviam alerta;
- Realidade aumentada: Treinamento em altura sem risco real;
- Robôs para instalação: Para içamento de condensadoras pesadas;
- Análise de risco com IA: Cruzar dados de clima, local e histórico para prever riscos;
- Maior foco em saúde mental: Fadiga e pressa são grandes causas de acidente.
–







