Quando o ruído vira vibração

Problemas de ruído em sistemas de climatização e refrigeração estão entre as reclamações mais comuns em edifícios modernos. Diagnóstico preciso, medições confiáveis e soluções de engenharia adequadas são fundamentais para garantir conforto acústico.
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Os sistemas de climatização e refrigeração são essenciais para o conforto térmico de edificações residenciais, comerciais e industriais. No entanto, quando mal projetados, instalados ou mantidos, podem se transformar em importantes fontes de ruído e vibração. Em edifícios modernos, cada vez mais densos e tecnologicamente complexos, essas ocorrências estão entre as principais causas de reclamações acústicas.
De acordo com o engenheiro civil e acústico Sérgio Salgado Vargas, sócio-diretor da Omni Acústica & Engenharia, empresa especializada em consultoria de acústica arquitetônica e ambiental, o tema aparece com frequência no cotidiano da engenharia predial. “Atuamos em projetos que vão desde residências de alto padrão até grandes empreendimentos comerciais e industriais. Em muitos casos, os sistemas de HVAC-R estão diretamente ligados às queixas de ruído em edifícios”, explica.
Segundo ele, o diagnóstico adequado começa antes mesmo da instrumentação. “Nossa primeira ferramenta é o ouvido humano. A análise auditiva criteriosa permite identificar características importantes do ruído como se ele é tonal, impulsivo, de baixa frequência ou associado à rotação de algum componente. Essa percepção orienta toda a estratégia de medição”, informa Vargas.
Após essa avaliação inicial, entram em cena os instrumentos de medição. O principal deles é o sonômetro de Classe 1, utilizado com filtros de análise em bandas de terço de oitava. Para garantir a validade dos resultados, o equipamento deve possuir calibração rastreável à Rede Brasileira de Calibração (RBC), vinculada ao Inmetro. Para investigar vibrações estruturais, são empregados acelerômetros e sistemas de aquisição de dados capazes de registrar acelerações em múltiplos eixos e gerar espectros de frequência. Essas medições ajudam a identificar componentes harmônicos relacionados à rotação de máquinas e permitem verificar como a vibração se propaga por lajes, tubulações e paredes.

Sérgio Salgado Vargas, sócio-diretor da Omni Acústica & Engenharia
Segundo Vargas, no Brasil, a avaliação segue principalmente as normas NBR 10151, que trata de níveis de ruído em áreas habitadas; NBR 10152, que estabelece níveis de conforto acústico em ambientes internos; e NBR 15575, que define critérios de desempenho para edificações habitacionais, incluindo limites para ruído de equipamentos prediais.
“Um dos maiores desafios é a transmissão estrutural. Vibrações podem percorrer lajes e paredes com grande eficiência, muitas vezes chegando a ambientes distantes da origem do problema”, destaca o engenheiro.
Ruído mecânico ou aerodinâmico?
Distinguir a origem do ruído é essencial para definir a solução correta. Ruídos gerados por compressores, ventiladores ou bombas costumam apresentar picos tonais bem definidos no espectro de frequência. Esses picos correspondem à rotação do equipamento e aos seus harmônicos. Um motor operando a 1.450 rpm, por exemplo, gera uma frequência fundamental próxima de 24 Hz. No espectro acústico, aparecem componentes em 24 Hz, 48 Hz, 72 Hz e assim sucessivamente. Outro indício típico é a vibração perceptível em superfícies próximas, como paredes e pisos.
“Já o ruído associado ao fluxo de ar nos dutos apresenta comportamento diferente. Ele é caracterizado por energia distribuída em uma faixa ampla de frequências, com predominância nas médias e altas frequências, aumentando conforme a velocidade do ar. Quando confirmamos a origem mecânica, a intervenção normalmente envolve o próprio equipamento e seus sistemas de fixação”, afirma.
Entre os problemas mais recorrentes identificados em campo está o desgaste ou ausência de isoladores antivibratórios. Com o tempo, elementos de borracha podem perder elasticidade e se tornar rígidos, transformando-se em verdadeiras pontes de transmissão de vibração. Outro fator frequente é o desbalanceamento de ventiladores, causado por acúmulo de sujeira nas pás ou desgaste irregular. Pequenos desequilíbrios de massa geram forças centrífugas que se traduzem em vibração sincronizada com a rotação do equipamento. Desalinhamentos entre motor e equipamento acionado também aparecem com frequência. Esse tipo de falha gera harmônicos específicos e acelera o desgaste de mancais e rolamentos.
Em alguns casos, ocorre ainda um fenômeno mais complexo: a ressonância estrutural. Quando a frequência natural da estrutura coincide com a frequência de excitação do equipamento, a vibração pode ser amplificada de forma significativa. Também é comum encontrar tubulações e dutos rigidamente fixados à estrutura, sem elementos flexíveis. Nesses casos, a vibração se propaga pela rede de instalações e pode se manifestar como ruído em ambientes distantes do ponto de origem.
“A estratégia de controle deve atuar em três frentes: na origem do problema, no caminho de transmissão e, quando necessário, no ambiente receptor. Na origem, a prioridade é garantir boas condições mecânicas do equipamento, com balanceamento adequado, alinhamento correto e manutenção preventiva. No caminho de transmissão estrutural, entram em cena os isoladores antivibratórios como molas helicoidais ou elastômeros dimensionados para a carga do equipamento. Em muitos casos, também são empregadas bases inerciais de concreto, que aumentam a massa do conjunto e reduzem a transmissão de vibração para a estrutura”, diz Vargas.

Ruídos gerados por compressores, ventiladores ou bombas costumam apresentar picos tonais bem definidos
Ele acrescenta que, para as tubulações, recomenda-se a instalação de conexões flexíveis e suportes com elementos resilientes, evitando contato metálico direto com a estrutura. Quando o ruído aéreo irradiado é significativo, a solução pode incluir tratamento acústico da casa de máquinas, com paredes de dupla camada, portas com vedação acústica e sistemas de ventilação tratados acusticamente.
Procedimentos como balanceamento dinâmico de ventiladores e correção de desalinhamentos mecânicos costumam trazer resultados rápidos e expressivos. “Um ventilador balanceado dinamicamente pode reduzir sua amplitude de vibração em até 70% ou 80%. Isso se reflete imediatamente no nível de ruído percebido nos ambientes adjacentes”, afirma Vargas.
Exemplos de caso de sucesso
Ele apresenta alguns exemplos de caso em quatro situações que ilustram bem a variedade de problemas que encontramos em campo.
Caso 1 – Chiller em cobertura de edifício corporativo:
Recebemos a demanda de um edifício de escritórios de alto padrão em São Paulo. Os ocupantes dos últimos andares relatavam um ronco contínuo de baixa frequência (som de características graves), perceptível principalmente no período noturno. As medições com o sonômetro identificaram um componente tonal proeminente em torno de 50 Hz, exatamente a frequência de rotação do compressor scroll do chiller instalado na cobertura. Os isoladores antivibratórios originais estavam em colapso total. Solução: substituição por molas helicoidais com frequência natural de 4 Hz, instalação de juntas flexíveis nas conexões de tubulação e aplicação de laje flutuante na casa de máquinas. Resultado: redução de 12 dB no nível de vibração transmitida.
Caso 2 – Condensadora de ar split em parede de geminado residencial:
Situação clássica e muito comum. A condensadora foi fixada diretamente na parede divisória entre dois imóveis, sem qualquer isolamento. A vibração do compressor excitava a parede, que funcionava como uma caixa de ressonância, e o vizinho ouvia um zumbido claramente dentro do seu dormitório. Solução: reposicionamento da unidade com suporte afastado da parede, isoladores de borracha nas fixações e revestimento da área da parede com placa de gesso com manta de lã de rocha. Resultado: custo baixo e resolução imediata da reclamação.
Caso 3 – Bomba de recirculação em shaft hidráulico de edifício residencial:
Em um edifício residencial multifamiliar, moradores de vários andares reclamavam de um ruído rítmico noturno, descrito como uma “pulsação”. A bomba de recirculação de água quente estava fixada diretamente à tubulação de cobre sem qualquer amortecimento, dentro de um shaft que percorria verticalmente todo o edifício. A tubulação funcionava como um radiador de ruído e vibração para todos os andares simultaneamente. Solução: instalação de conexões flexíveis metálicas na sucção e recalque da bomba, substituição dos suportes por modelos com guarnição de neoprene e instalação de um silenciador de linha. Resultado: problema resolvido em toda a coluna do edifício.
Caso 4 – Câmara fria em estabelecimento comercial próximo a residências:
Uma câmara fria instalada em um estabelecimento comercial de pequeno porte gerava reclamações dos moradores do imóvel vizinho, especialmente em função dos ciclos noturnos de degelo, que geravam impactos mecânicos abruptos. A análise mostrou que o compressor hermético estava sobre uma base metálica soldada diretamente ao piso de concreto. A solução envolveu a criação de uma base inercial de concreto com isoladores de mola, revestimento interno do compartimento do compressor com material absorvente e instalação de um temporizador para limitar os ciclos de degelo ao período diurno. Resultado: eliminação das reclamações noturnas e redução significativa do nível de vibração transmitida à estrutura vizinha.
Para ele, muitas reclamações acústicas poderiam ser evitadas com uma abordagem preventiva. “Antes de pensar em grandes intervenções construtivas, é fundamental verificar o estado mecânico dos equipamentos. Muitas vezes, a solução está em um ajuste relativamente simples. Em um cenário em que o conforto acústico se torna cada vez mais valorizado nas edificações, integrar critérios de ruído e vibração aos projetos de HVAC-R é um passo essencial para garantir desempenho, qualidade ambiental e convivência harmoniosa entre os ocupantes”, finaliza Vargas.

Projeto de enclausuramento em máquinas de resfriamento
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Resumen (español)
Los problemas de ruido y vibración en sistemas de climatización y refrigeración están entre las principales quejas en edificios modernos. Según el ingeniero acústico Sérgio Salgado Vargas, de Omni Acústica & Engenharia, el diagnóstico preciso requiere evaluación auditiva, mediciones con sonómetros de Clase 1 y análisis estructural de vibraciones. El reportaje muestra cómo fallas en chillers, condensadoras split, bombas hidráulicas y cámaras frigoríficas pueden generar molestias acústicas, además de presentar soluciones de ingeniería como aisladores antivibratorios, bases inerciales y balanceo dinámico para reducir la transmisión de ruido en edificaciones residenciales y comerciales.
Summary (English)
Noise and vibration issues in HVAC-R systems are among the most common complaints in modern buildings. According to acoustic engineer Sérgio Salgado Vargas, from Omni Acústica & Engenharia, accurate diagnosis depends on auditory assessment, Class 1 sound level measurements and structural vibration analysis. The report details how failures involving chillers, split air-conditioning condensers, recirculation pumps and cold rooms can generate acoustic discomfort, while also presenting engineering solutions such as vibration isolators, inertial concrete bases and dynamic balancing to reduce noise transmission in residential and commercial buildings.









