Retrofit com R-454B e R-32 exige planejamento técnico e atenção às normas de segurança

A transição para refrigerantes de menor GWP tem impulsionado o debate sobre retrofit em sistemas que utilizam R-404A e R-410ª

 A busca por soluções mais sustentáveis na refrigeração e climatização tem acelerado a substituição de refrigerantes   com alto potencial de aquecimento global (GWP). Alternativas como R-454B e R-32 surgem como opções para reduzir o impacto ambiental de sistemas que atualmente operam com R-404A e R-410A. Entretanto, a substituição desses fluidos não pode ser tratada como uma simples troca direta. A adoção de refrigerantes classificados como A2L, que apresentam leve inflamabilidade, exige uma abordagem técnica cuidadosa, envolvendo análise do sistema, compatibilidade de componentes e adequação às normas de segurança.

Segundo Alexandre Fernandes Santos, professor doutor da FAPRO-ETP, a prática de substituir diretamente o refrigerante sem adaptações técnicas não é recomendada.

“Embora não seja impossível realizar esse retrofit, não é recomendável fazer uma substituição direta do tipo ‘drop-in’ sem as devidas adaptações técnicas. Equipamentos que utilizam R-410A geralmente estão em boas condições, e o ideal seria utilizá-los até o final de sua vida útil. Após isso, um retrofit completo deve ser considerado, substituindo o sistema por um que utilize R-32 ou R-454B”, explica.

Ele destaca ainda que os novos fluidos apresentam características termodinâmicas distintas dos refrigerantes tradicionais.

“É importante lembrar que os fluidos A2L, como R-32 e R-454B, apresentam características de pressão e temperatura diferentes dos refrigerantes A1. Portanto, medidas de segurança, como ventilação adequada e instalação de sensores de vazamento, são essenciais para evitar riscos. Durante o processo de retrofit, é fundamental avaliar a compatibilidade de componentes como compressores, válvulas, óleo lubrificante e dispositivos de expansão. Se o equipamento estiver próximo do fim de sua vida útil, pode ser mais viável considerar um retrofit completo (de sistema), regenerando o fluido refrigerante antigo, ao invés de apenas substituí-lo em máquinas antigas. Essa abordagem garante que todos os componentes estejam alinhados com as novas exigências dos refrigerantes de baixo GWP”, esclarece o professor.

Avaliação dos componentes e normas de segurança

Um dos pontos mais críticos no processo de retrofit está na análise da compatibilidade dos componentes do sistema. Compressores, válvulas, óleo lubrificante e dispositivos de expansão precisam ser avaliados individualmente para garantir operação segura e eficiente com o novo fluido.

De acordo com Alexandre, a idade e o estado do equipamento também influenciam diretamente na decisão técnica.

“Durante o processo de retrofit, é fundamental avaliar a compatibilidade de componentes como compressores, válvulas, óleo lubrificante e dispositivos de expansão. Se o equipamento estiver próximo do fim de sua vida útil, pode ser mais viável considerar um retrofit completo de sistema, regenerando o fluido refrigerante antigo, ao invés de apenas substituí-lo em máquinas antigas”.

Essa abordagem permite alinhar o conjunto de componentes às exigências dos novos refrigerantes de baixo GWP, reduzindo riscos operacionais e aumentando a confiabilidade do sistema.

Também a introdução de refrigerantes A2L exige maior rigor no cumprimento das normas técnicas e na execução dos procedimentos de manutenção e retrofit. Pequenos erros operacionais podem gerar consequências graves para o equipamento.

“Os refrigerantes A2L, como R-454B e R-32, apresentam um risco técnico significativo. A injeção de líquido no compressor ou o superaquecimento inadequado podem resultar em calço hidráulico ou até queima do compressor. Para evitar esses problemas, alguns ajustes são indispensáveis. É vital que a válvula de expansão seja ajustada ou substituída, e que o compressor seja compatível com a nova pressão e carga de óleo. Além disso, técnicos devem ser treinados especificamente para manusear refrigerantes inflamáveis, seguindo rigorosamente as normas de segurança e verificando a compatibilidade do sistema antes de realizar qualquer alteração. Entre as medidas recomendadas estão a verificação da ventilação do ambiente, uso de sensores de vazamento, análise da carga refrigerante e revisão completa dos parâmetros de operação”, alerta Alexandre.

Benefícios ambientais e desafios regulatórios

A migração para refrigerantes de menor GWP representa um avanço significativo na redução das emissões indiretas e diretas associadas aos sistemas de refrigeração e climatização.

“A migração para refrigerantes como R-454B e R-32 oferece ganhos ambientais significativos, com uma redução na pegada de GWP que pode ser maior que três vezes em comparação com R-404A e R-410A. No entanto, é crucial destacar que o R-454B é considerado um refrigerante que contém PFAS (substâncias per- e polifluoroalquiladas), conhecidas como químicos eternos. Essas substâncias são extremamente persistentes no meio ambiente e têm gerado preocupações significativas devido ao seu potencial de causar danos à saúde humana e ao ecossistema, incluindo a vida marítima. Embora o R-454B apresente uma redução de 78% no GWP em relação ao R-410A, seu status como um químico eterno levanta debates sobre sua aceitação e uso futuro, especialmente na Europa, onde já existem restrições em relação ao uso de PFAs. Por outro lado, o HFC-32, sendo um refrigerante de componente único, não contém PFAS e, portanto, é uma alternativa mais sustentável e ambientalmente amigável. Além disso, o HFC-32, sendo uma substância pura, apresenta um Coeficiente de Performance (COP) muito próximo aos fluidos antigos, oferecendo ganhos ambientais significativos. No entanto, também devemos considerar o potencial dos fluidos refrigerantes naturais que são uma alternativa verdadeiramente sustentável”.

Alexandre acrescenta que, além dos desafios técnicos, a transição para novos refrigerantes exige investimento em qualificação profissional. O manuseio seguro de fluidos A2L e de alternativas naturais requer treinamento específico e padronização de competências.

“Os fabricantes têm se esforçado, mas há espaço para melhorias. A GIZ, em colaboração com o Ministério do Meio Ambiente, e a FAPRO-ETP já realizaram treinamentos para 180 técnicos sobre o manuseio de fluidos refrigerantes naturais e estão desenvolvendo um programa que inclui qualificação, certificação e registro. Iniciativas como o Programa Brasileiro de Eliminação dos HCFCs (PBH) também têm contribuído para a formação de profissionais. O PBH, com seu programa de boas práticas, tem sido um exemplo na qualificação de profissionais. Além disso, os fabricantes possuem seus programas internos de certificação para instaladores no Brasil”, informa o professor.

Mesmo assim, o país ainda enfrenta um déficit de mão de obra qualificada.

“O Brasil, sendo um país tropical, conta com cerca de 100 mil profissionais de refrigeração e climatização, em comparação com 500 mil na Austrália. Portanto, há uma demanda significativa por mais profissionais qualificados”, conclui.

Resumen (español)
La transición hacia refrigerantes de bajo GWP, como R-454B y R-32, ha impulsado el debate sobre retrofit en sistemas que operan con R-404A y R-410A. Especialistas advierten que la sustitución no debe realizarse como un simple “drop-in”, debido a las diferencias de presión, temperatura y características de seguridad de los fluidos A2L. El profesor Alexandre Fernandes Santos, de la FAPRO-ETP, destaca la necesidad de evaluar compresores, válvulas, aceite lubricante y dispositivos de expansión, además de cumplir estrictamente las normas de seguridad. El avance ambiental de estos refrigerantes también plantea desafíos regulatorios y demanda mayor capacitación técnica en Brasil.

Summary (English)
The transition to lower-GWP refrigerants such as R-454B and R-32 has intensified discussions about retrofitting systems operating with R-404A and R-410A. Experts warn that the replacement should not be treated as a simple drop-in procedure, due to differences in pressure, temperature, and safety characteristics associated with A2L refrigerants. Alexandre Fernandes Santos, professor at FAPRO-ETP, emphasizes the importance of assessing compressors, valves, lubricating oil, and expansion devices, while strictly following safety standards. Although these refrigerants provide environmental benefits, the transition also raises regulatory concerns and highlights the need for expanded technical training in Brazil.