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Óleos e Lubrificantes

01/04/2006

Embora represente uma gota no oceano, se comparada ao consumo do setor automotivo, por exemplo, a utilização de lubrificantes em HVAC-R é assunto levado a sério pelas grandes indústrias do setor petroquímico. Entre os usuários, o que importa mesmo é saber qual a melhor relação custo-benefício no óleo utilizado em cada diferente aplicação e também de que forma devem agir no seu dia-a-dia para aproveitar ao máximo a vida útil de cada troca.

Quando se fala em refrigeração doméstica e ar-condicionado, reinam praticamente soberanos no mercado atual os óleos sintéticos, tendo-se em vista as características técnicas dos aparelhos desses dois segmentos; os fluidos refrigerantes por eles empregados e a própria quantidade reduzida de lubrificante aplicada, o que torna praticamente irrelevante na economia obtida com a aquisição de um determinado lubrificante mais caro ou em conta.

Em compensação, as grandes instalações de frio à base de amônia, por exemplo, requerem atenção mais do que especial nesse campo, considerando-se justamente o contrário, ou seja, os expressivos volumes de óleo em questão e, conseqüentemente, dos gastos que esse insumo representa no orçamento mensal.
Por isso, lubrificantes minerais e sintéticos ainda disputam acirradamente esse mercado, num verdadeiro desfile de prós e contras onde os fatores preço, intervalo entre as trocas e confiabilidade fazem a balança pender de forma alternada para ambos os lados.

Diferentes tipos

Tecnicamente, o supervisor técnico da Frimar, uma empresa paulistana especializada em recondicionamento de compressores para refrigeração comercial e industrial, lembra que a temperatura de evaporação e o fluido refrigerante utilizado são alguns dos principais fatores determinantes da lubrificação ideal a ser adotada.

O óleo mineral, por exemplo, Álvaro Cabral dos Santos aponta como sendo ideal para a chamada média temperatura de evaporação (até – 15°C), enquanto opções intermediárias, os chamados semi-sintéticos, se prestam a temperaturas de até – 50°.

Abaixo disso, porém, ele lembra que só faz sentido, hoje, aplicar os lubrificantes 100% sintéticos.
Mas além de evitar o risco de escolher o óleo errado sempre vale a pena analisar com cuidado o custo-benefício antes de abrir a próxima lata.

De acordo com Marcelo Cavalcanti da Silva, gerente de mercado para o segmento de compressores da Klüber Lubrication Lubrificantes Especiais Ltda., isso justifica plenamente o crescimento médio de 20% ao ano que o emprego dos sintéticos tem alcançado na refrigeração brasileira.

Na ponta do lápis

Fundada em 1929, sua empresa tem origem alemã e atua no Brasil há 35 anos, oferecendo ao mercado local produtos como o Klüber — Summit R 200, um óleo cuja base é a poliolfiolefina.

Dentre as causas para o avanço de produtos como esse, o engenheiro químico aponta a escassez da base naftênica, o que motivou a realização de misturas mundo afora em busca de blends que garantissem aos lubrificantes minerais a mesma eficiência obtida antes, um objetivo que nem todos os fabricantes conseguiram atingir, segundo ele.

Ao mesmo tempo, as exigências de setores como os grandes frigoríficos vêm aumentando sensivelmente, com salas de máquinas cada vez mais solicitadas, trabalhando com temperaturas baixíssimas nos evaporadores das câmeras frias e muito altas na descarga, o que requer lubrificantes capazes de manter sua integridade, mesmo diante de condições de funcionamento adversas.

Igualmente a favor dos óleos sintéticos, segundo Cavalcanti, contam a economia energética e o aumento da vida útil que propiciam às instalações, face à ausência de contaminantes como cera e enxofre, que reagem negativamente com a amônia, dando origem a resíduos prejudiciais ao bom funcionamento dos compressores.

Sua colega, Rosemeire Zilse, atua na área da Klüber que fornece lubrificantes especiais destinados à indústria alimentícia, e coloca até o respeito à natureza no rol dos aspectos favoráveis à expansão dos sintéticos.

“A questão ambiental está sendo tratada de forma mais séria no Brasil, gerando custos cada vez maiores para o descarte dos lubrificantes minerais, problema que os sintéticos não têm diante da reutilização facilitada”, pondera.

Mesmo assim, indústrias de bebidas e leite ainda não seguiram os passos dos frigoríficos e continuam preferindo o óleo mineral, quadro que Rosemaire atribui ao fato desse tipo de usuário trabalhar com temperaturas mais amenas, contra os até 50 graus negativos das instalações que processam carnes e derivados.

Mudança de rota

Além da dificuldade em se obter mundialmente as bases naftênicas, a chegada dos novos fluidos refrigerantes acabou diminuindo a força de alguns lubrificantes minerais que marcaram época abastecendo, praticamente, todos os tipos de compressores encontrados no mercado.

Tal hegemonia persistiu até meados da década de 80, quando a viscosidade desses lubrificantes deixou de ser baixa o suficiente para oferecer bons resultados nas gerações de equipamentos surgidas daquela época em diante.

Enquanto havia matéria-prima abundante para a sua produção, características como miscibilidade ideal com o fluido refrigerante e risco quase nulo de floculação (formação de flocos a temperaturas abaixo de — 40°C) atenderam em cheio às necessidades dos fabricantes, inclusive no quesito economia energética, que começava a ganhar ares de verdadeira obsessão.

A mudança gradativa desse cenário levaria grandes empresas de lubrificantes a voltar suas baterias para o segmento de compressores abertos, embora produtos referenciais para os herméticos – caso da versão WF do tradicional óleo Capella -, cheguem ao mercado brasileiro até hoje, porém via importação.

“Atualmente produzimos no Brasil o Capella 68, óleo mineral indicado para temperaturas até — 20°C”, explica Jorge Faria Rodrigues, gerente de Suporte de Vendas do Segmento Industrial América latina da Chevron Global Lubricants.

Segundo ele, sua empresa ainda atende em grande escala os usuários de sistemas abertos, segmento no qual se encontram os grandes frigoríficos e demais usuários de amônia, exatamente a fatia do mercado na qual sintéticos e minerais ainda disputam a preferência dos clientes.

Muitas dessas empresas preterem o custo até cinco vezes superior dos sintéticos pelo uso dos minerais naftênicos, com ou sem aditivos especiais, e ainda os lubrificantes do mesmo gênero, porém de base parafínica, dependendo do grau de severidade e da conseqüente viscosidade necessária ao bom funcionamento de suas instalações.

“A partir do momento em que os equipamentos começaram a ficar mais sofisticados, com maiores exigências, foi necessário adotar uma postura mais adequada no campo da manutenção, que passou a ser muito mais preventiva do que corretiva”, analisa Rodrigues. “É nesse ponto — prossegue ele – que o cliente pode consultar nosso técnico para saber o melhor produto a utilizar e os períodos recomendados para as trocas, mediante análises e acompanhamentos que a nossa equipe de suporte oferece”, diz o executivo da empresa fundada nos Estados Unidos em 1901, com o nome Texaco, e que há noventa anos atua também no Brasil.

Pureza de fábrica

Ao contrário do que possa sugerir, não apenas óleos usados estão sujeitos a processos de purificação. Os fabricantes de compressores herméticos e semi-herméticos, por exemplo, utilizam sistemas do gênero ao transferir o óleo novo do tambor para um equipamento que acaba de ser produzido. A finalidade é eliminar umidade, oxigênio ou qualquer outro gás que possa ter se desenvolvido durante a armazenagem do lubrificante.

Uma das fornecedoras tradicionais nesse segmento é a Boc Edwards, empresa de origem norte-americana, que além de conhecida fornecedora da área de bombas de vácuo4 para HVAC-R, possui uma área dedicada ao tratamento de óleo.

Segundo Rodrigo Guerreiro, vendedor técnico há cinco anos da empresa, a Boc Edwards disponibiliza cerca de vinte modelos, dedicados a diferentes tipos de lubrificantes e aos respectivos graus de pureza que cada aplicação
requer.

No caso dos óleos utilizados em compressores, oferece ao mercado as linhas HCD e HCS. A primeira, além do equipamento para tratar o óleo, apresenta um tanque que armazena o lubrificante para ser recolocado na linha conforme a demanda.

Ambos, porém, requerem que o usuário proceda ao termovácuo, tratamento físico considerado completo, pois retira resíduos de gás, umidade e partículas, antes da substituição do óleo. Só assim é possível beneficiar-se da condição de praticamente novo que o óleo assume após ser tratado.

A primeira etapa desse processo é o aquecimento, quando se diminui a viscosidade do óleo para facilitar o tratamento, mediante a agitação das moléculas. Em seguida, o lubrificante entra na câmara de desgaseificação, que funciona interligada a uma bomba de vácuo. É ali que se retiram os eventuais resíduos de umidade e gás. A última etapa é a eliminação das micro-partículas, obtida por meio de filtragem.

O maior equipamento tem vazão nominal de 500 litros/hora e pesa cerca de 1.800 quilos, sendo que o menor processa um quinto desse volume.

Embora ainda seja quase uma exclusividade das fábricas, Rodrigo acredita na tendência rumo à popularização do tratamento de óleo entre as empresas de manutenção, já que uma das metas da Boc Edwards na área de engenharia e desenvolvimento é perseguir a diminuição do porte e, naturalmente, do preço desse tipo de dispositivo, cuja versão mais simples pode custar US$ 100 mil.

“Mas quem é do meio sabe entender a relação custo-benefício positiva de se utilizar um sistema como esse que realmente agrega tecnologia”, argumenta.

Alimentos em segurança

Um aspecto igualmente curioso relacionado à lubrificação no Frio envolve as linhas de produção da indústria alimentícia que, por determinação do Ministério da Agricultura, só podem trabalhar com óleos de grau alimentício H1, cuja atoxidade não oferece riscos à saúde dos consumidores ao entrar, eventualmente, em contato com os alimentos durante sua industrialização.

Especializada nesse segmento, a empresa brasileira Grax Lubrificantes Especiais até oferece cursos gratuitos na área, tal a complexidade que envolve, por exemplo, a lubrificação das nórias, aquelas estruturas suspensas por onde são transportadas as aves nas etapas de abate e processamento industrial.

Seu gerente de Marketing, Júlio Oliveira, aponta também os túneis de congelamento como usuários freqüentes desse tipo de produto, que além de não poder ameaçar a integridade dos alimentos precisa resistir a temperaturas inferiores a 20 graus negativos sem congelar ou perder suas propriedades lubrificantes.

“Quando se utiliza um lubrificante de alta performance obtém-se ganhos que justificam em muito o maior custo que ele apresenta, pois além de diminuir a necessidade de mão-de-obra em comparação aos processos que não possuem lubrificação automática, permite maior intervalo entre as aplicações e apresenta como benefício extra o respeito ao meio ambiente, na medida em que diminui significativamente os volumes destinados a descarte”, arremata Oliveira.

Por mais que haja opções e diferentes possibilidades nesse setor, um aspecto chega a ser unânime entre os profissionais da lubrificação. Para que bons resultados sejam obtidos, qualquer que seja o óleo aplicado no sistema, o usuário precisa valorizar e capacitar seus profissionais envolvidos nessa área que, por incrível que pareça, nem sempre é cuidada nas empresas por gente realmente capacitada a lidar com um assunto tão delicado e decisivo para o sucesso e a longevidade de uma instalação.

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