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Hospitais, um antigo desafio

01/02/2007

Os quase cem anos que separam os dias de hoje da primeira instalação de ar-condicionado hospitalar, realizada em 1914 no Allegheny General Hospital, de Pittsburg, Estados Unidos, representam tempo suficiente para uma grande evolução desse segmento em todo o mundo. Inclusive em nosso país, apesar das dificuldades enfrentadas pela rede pública de atendimento médico, à qual ainda recorre a maior parte da população.
Na esteira desse quadro e do alto nível de qualidade exigido na climatização de hospitais, empresas que agregam a projetos do gênero os muitos acessórios necessários ao êxito desse tipo de instalação têm garantido espaço crescente no mercado.
Um exemplo desse caminho pode ser visto na Intercon Engenharia, que há 25 anos lida com conforto térmico e resolveu criar em 2006, uma divisão especialmente voltada ao setor de salas limpas, uma das instalações muito comuns nesse campo.

Contratos abrangentes
A opção para isso foi atuar em turn-key, ou seja, oferecendo a instalação completa de painéis, forros, divisórias, pass-through, automação, ar-condicionado e estruturas metálicas, entre outros elementos. “Durante todos esses anos, verificamos que o setor necessita de engenharia, mão-de-obra, estrutura e gerenciamento altamente qualificados”, enfatiza o coordenador de obras da empresa paulistana, Jacques Ascer, para quem o fornecimento de pacotes integrais tem se revelado a forma mais racional de trabalhar no setor.
“A contratação de uma única empresa, no regime turn key completo, proporciona ganho de qualidade, redução de custos e melhor rendimento no tempo de instalação”, acrescenta o engenheiro.
Com a expertise adquirida em 50 anos no segmento de arquitetura hospitalar, incluindo vivência internacional e projetos expressivos também no Brasil, Jarbas Bela Karman coloca acima de tudo a prevenção de infecções hospitalares e o combate ao que qualifica como insalubridade ambiental.
“O sistema de ar-condicionado tanto pode contribuir para a higidez do local como, ao contrário, fomentar a sua colonização por patógenos”, adverte.
Por isso, segundo Karman, é essencial que o projetista tenha amplo conhecimento das necessidades de uma área tão delicada para evitar que certos problemas de resolução relativamente simples prejudiquem a instalação como um todo. “Os dutos de ar-condicionado requerem amplos espaços. Se isto não for considerado antecipadamente no projeto a instaladora acabará ‘aleijando’ o sistema, com graves conseqüências que perdurarão por toda a vida útil da instituição”, alerta o especialista.
Dentre os facilitadores para a realização de bons trabalhos na área, o arquiteto coloca o emprego crescente dos fancoils. “O sistema individualiza a qualidade do ar ambiente, permitindo assim que cada diferente tipo de cirurgia ocorra em condições ideais de temperatura e umidade”, explica.
Entre os fornecedores do setor que também têm apostado nessa tendência está a Tec Imports, empresa que, a partir de uma bem-sucedida obra no Hotel Holiday In, em São Paulo, envolvendo 760 fancoils combinados com splits High Wall, da marca De Longui, partiu para o ramo hospitalar.
Seus trunfos para a tomada de tal decisão incluem o fato de o sistema dispensar a limpeza de dutos, característica muito bem recebida pelo setor.
“Por ter circulação própria e não passar por dutos, a eficiência e a qualidade do ar desses equipamentos são muito melhores, garantindo ao paciente maior segurança quanto ao risco de infecção hospitalar”, assegura a diretora comercial da empresa, Neusa Pontes.

Isolamento seguro
Para Christiane Rodrigues Lacerda, gerente comercial da Hidroservice, empresa especializada em avaliação e controle do ar em ambientes climatizados, a escolha certa dos equipamentos e sua constante limpeza é, de fato, fundamental para livrar o ambiente de fungos e bactérias. “Por conta das características próprias do local, com o fluxo de pacientes portadores das doenças mais variadas, esse tipo de ambiente fica muito exposto à contaminação por microorganismos”, justifica.
Mas a engenheira alerta que, além dos aparelhos propriamente ditos, é importante a opção por materiais adjacentes adequados a uma instalação hospitalar.
Foi justamente pensando nisso que a catarinense Polipex colocou no mercado uma manta de polietileno de baixa densidade expandido que leva em conta necessidades especiais, como o emprego de matéria-prima quimicamente inerte e atóxica e a não liberação de partículas nos ambientes.
“O Polipex Duct atende aos rígidos pré-requisitos de hospitais e outros ambientes com alto risco de contaminação”, garante o gerente Geral da empresa, Lineu Teixeira de Freitas Holzmann.
Por sua vez, a também especialista em isolantes Armacell recomenda sua espuma elastomérica Armaflex com revestimento antibacteriano ActShield para obras onde qualidade do ar interior seja uma questão, literalmente, de vida ou morte.
O produto possui uma película biológica (biofilm), desenvolvida com base nos avanços da nanotecnologia e que, segundo o diretor de Marketing da empresa no Brasil, Arnaldo Basile, inibe o desenvolvimento de microorganismos.

Preocupação acadêmica
Mesmo tendo poucos modelos de excelência frente ao número de hospitais que abriga, o Brasil já pode orgulhar-se de possuir estudiosos preocupados com a manutenção da qualidade do ar no ambiente hospitalar.
Um deles é o engenheiro mecânico Marcelo Luiz Pereira que, em sua tese de doutorado pela USP, avalia a quantidade de partículas aéreas no campo cirúrgico de acordo com o sistema de ar-condicionado utilizado, um estudo até então inédito no mundo.
Professor da área de refrigeração e ar-condicionado do CEFET-SC (Centro Federal de Educação Tecnológica de Santa Catarina), ele afirma que o grande problema detectado em hospitais avaliados em São Paulo e Santa Catarina é a falta de padronização no uso de equipamentos. “Encontramos nas salas cirúrgicas desde aparelhos usados em escritórios até equipamentos com fluxo laminar, que deveriam ser usados em todos os hospitais”, relata o estudioso.
Ele revela ainda que entre os piores exemplos encontrados até aqui está o de salas para cirurgias infecto-contagiosas que, além de excessivamente pequenas, utilizam condicionador de janela. “Toda contaminação gerada permanece no ar, e essas partículas são arremessadas para a superfície. Ao inalar tais resíduos, corre-se um risco muito grande”, explica.
Segundo Pereira, um aspecto inédito do seu estudo foi a aplicação de modelos matemáticos para a avaliação da concentração de partículas no interior destas salas.
O engenheiro esclarece também que as mais nocivas são aquelas geradas pelo próprio paciente durante o procedimento cirúrgico. Mas há ainda contaminações causadas pela infiltração de ar em áreas próximas e no próprio equipamento de ar-condicionado.
Igualmente preocupantes, segundo ele, são as infiltrações de ar pelas áreas adjacentes, fator que pode ser corrigido pela pressão positiva do próprio ar-condicionado. Mas ressalva que o sistema pode passar facilmente de salvador a vilão quando carece de limpezas periódicas e trocas permanentes de filtros.
O professor do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e diretor de ensino da Asbrav (Associação Sul Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Aquecimento e Ventilação), Paulo Otto Beyer, é outro especialista que vem estudando essa área no país.
Para ele, o controle da quantidade de partículas em suspensão é mesmo fundamental para que se mantenham boas condições nas salas limpas. “Devem ser feitas contagens periódicas, assim como medições da pressão ambiental”, acentua.
Para o diretor superintendente da Trox do Brasil , Celso Simões, a qualidade do ar em qualquer local, inclusive nos hospitais, depende de quatro grandes grupos de fatores, sendo um deles o sistema de ar-condicionado propriamente dito.
Autor do livro “Distribuição de Ar”, ele assegura que evitar correntes é um ponto fundamental para a qualidade de todo tipo de instalação, mas torna-se aspecto crítico em se tratando de centros hospitalares. “Uma parte importante da população dos hospitais são os próprios doentes, com suas defesas imunológicas diminuídas, e algo que em uma pessoa saudável provoca no máximo um resfriado, em certos doentes pode ocasionar pneumonia”, ressalta.
Simões destaca ainda que em centros cirúrgicos se liberam certos gases, e apenas um sistema apropriado de distribuição de ar pode garantir a substituição desses elementos nocivos por uma atmosfera limpa e renovada.
Por isso, segundo o profissional, tem aumentado sensivelmente o emprego de sistemas especiais de difusão sobre as mesas cirúrgicas. “Seguindo o que se recomenda na Europa, já se procura criar por aqui uma área varrida por fluxo unidirecional, não apenas sobre a mesa operatória, mas envolvendo toda a equipe cirúrgica”, afirma.
Na opinião de Arlindo Tribess, professor doutor da Escola Politécnica da USP e coordenador do recém-criado curso multidisciplinar de Qualidade do Ar em Ambientes Interiores: Aspectos Técnicos e Efeitos na Saúde, tão importante quanto os bons equipamentos é a conscientização dos dirigentes de hospitais sobre a importância da boa qualidade do ar nesses ambientes.
“Normalmente, aspectos relacionados à qualidade do ar são lembrados apenas quando a situação torna-se crítica. É comum, por exemplo, em um processo de contenção de despesas, os responsáveis pelo estabelecimento diminuírem ou cortarem os recursos destinados à manutenção do sistema de condicionamento de ar e trocas de filtros”, lamenta ele, acrescentando que o estudo da área em nosso país ainda pode ser considerado discreto.
“Muito do que é desenvolvido no Brasil é restrito a poucos profissionais que têm imprimido esforços para a ampliação do conhecimento e o desenvolvimento de ações concretas em saúde ambiental”, arremata.

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