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No calor das discussões

01/03/2014

As altas temperaturas atuais, combinadas ao aquecimento também no consumo em países como o nosso, que caminham para o desenvolvimento, têm proporcionado uma mistura altamente motivadora, sobretudo para divagações.

Sob a égide da sustentabilidade, invoca-se toda a sorte de projeções, algumas mais outras menos catastróficas, todas suficientemente ameaçadoras, porém, para fazer qualquer um pensar duas vezes antes de maltratar um recurso natural que tenha pela frente.

O ar condicionado, conhecido vilão quando se pensa nas várias formas que existem de gastar energia elétrica, não poderia ficar de fora disso tudo, até mesmo por realmente representar um elemento considerável de consumo, como há muito tempo já se sabe.

Um estudioso da Universidade de Michigan resolveu pôr mais lenha ainda nesta fogueira ao prever que, até o ano 2100, pelo menos oito países de uma lista de 170, dentre eles o nosso, tendem a ultrapassar o gasto energético dos Estados Unidos para garantir o conforto térmico de suas populações, superando com isto os números da nação mais perdulária do planeta neste quesito.

Caso os prognósticos de Michael Sivak se confirmem, teremos de construir antes disso nada menos que três usinas hidrelétricas do porte de uma Itaipu, desafio bastante considerável, convenhamos, para quem chega às vésperas de sua segunda Copa do Mundo ainda ameaçado pelo pesadelo do Apagão.

CONTRAPARTIDAS

Mas será que o professor não estaria exagerando? Há quem diga que sim. É o caso do vice-presidente de Eficiência Energética da Abrava, Manoel Gameiro. Mesmo reconhecendo o mérito do especialista americano em trazer a questão à tona, ele acredita haverem aspectos suficientemente consideráveis, dentro e fora do HVAC, para se esperar um futuro bem mais brando neste particular.

O primeiro deles é a própria capacidade da indústria de climatização em produzir equipamentos eficientes, impulsionada pela clara sinalização de um consumidor mais consciente, capaz de colocar a economia em segundo plano no momento da aquisição, em detrimento de um retorno satisfatório ao longo do tempo. Sem falar no ganho, para muitos intangível, de ajudar a Terra a viver melhor.

Tal fator se combina positivamente à maior capacitação dos profissionais envolvidos nas igualmente decisivas fases de projeto, operação e manutenção, estas duas últimas comprovadamente responsáveis por 85% dos gastos de um prédio ao longo de todo o seu ciclo de vida, cuja média estimada varia em torno dos 50 anos, na análise do engenheiro.

Não é à toa, segundo ele, que já somos o quarto país do mundo em certificações LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), com um total de 829 pedidos de registro e 126 concedidos até o final de 2013, segundo o Green Building Council (GBC), entidade da qual Gameiro também participa.

Sem falar nos avanços registrados na indústria do vidro e na própria arquitetura brasileira, cuja concepção no passado foi extremamente centrada na forma, mas hoje também se preocupa em ser sustentável, retomando assim suas origens.

Contudo, ainda falta muito para se poder considerar que este jogo esteja ganho. No entender do profissional, o governo precisa atuar como uma espécie de maestro, em meio a uma sinfonia nem sempre afinada, e finalmente sinalizar de forma inequívoca para que lado pretende seguir no campo da energia.

O que se vê, no entanto, são sinais contraditórios, na opinião do engenheiro. “Ao mesmo tempo em que se mantém e estimula o programa do PROCEL, que é realmente maravilhoso, por etiquetar os produtos com a garantia de um laboratório atestando sua eficiência, se reduzem as tarifas com um propósito muito interessante: tornar mais competitiva a indústria brasileira em geral. Só que isso acabou gerando maior consumo de energia por parte das pessoas, constata. Se a desoneração focasse o estímulo para a produção de aparelhos mais eficientes, Gameiro acredita que o resultado certamente teria sido bem melhor em relação à eficiência energética e à sustentabilidade.

ALTERNATIVAS

Também com ressalvas em relação aos rumos energéticos adotados até aqui em nosso país, não só por parte do governo, mas também das empresas e a população como um todo em sua forma de agir, Marcelo Müller segue uma linha igualmente otimista com relação ao futuro.

“Nosso clima permite um casamento perfeito: durante o dia aproveitamos a energia solar, recorrendo de noite às usinas hidrelétricas. Somos o único pais que pode usar energia 100% limpa”, sentencia o diretor da paulistana Pindorama, braço do Grupo Poloar na área da sustentabilidade.

Na esteira disso tudo, ele acredita que o ar condicionado só tende a ampliar sensivelmente a popularização que vem alcançando, ao contrário do que ocorria 15 anos atrás, por exemplo, quando só as classes ‘A’ e ’B’ podiam adquiri-lo. “A ‘C’ já entrou totalmente nesse mercado e, mês a mês, está mais presente nele”, calcula.

Mas energia fotovoltaica é mesmo a palavra-chave que Marcelo aponta para uma guinada sustentável no setor. “Nós temos aqui uma fonte inesgotável de energia, só falta as empresas acreditarem nisto e exigir do governo que se movimente em torno desta importante questão, que é uma responsabilidade de todos nós”, diz ele, em alusão ao fato de ainda não termos nenhum fabricante local da área. “Isso chega a ser triste, pois somos um dos maiores exportadores de silício e ainda importamos a placa de energia fotovoltaica”, lamenta.

ROMPENDO BARREIRAS

“A tendência, no futuro, é o split ser composto por três partes: condensador, evaporador e placa de energia solar”, prossegue o empresário, para quem alguns obstáculos neste sentido já começaram a cair.

No ano passado, segundo ele, surgiu um importante alento. Antigamente, a única opção de aderir a este sistema era por meio de um banco de baterias, o que aumentava demais o custo do projeto.

Em 2013, contudo, o país aderiu ao protocolo europeu no uso da energia fotovoltaica, o chamado sistema on grid, que funciona assim: a energia acumulada é imputada na rede elétrica e os excedentes – quando não tem ninguém em casa, por exemplo – são distribuídos nos arredores da residência, gerando descontos na conta mensal.

É a chamada geração de energia distribuída descentralizada, que além de tudo, dispensa grandes investimentos em redes quilométricas de distribuição, como as que hoje existem. O usuário, evidentemente, também economiza em função de toda a energia convencional que deixa de consumir.

“São Paulo já iniciou esse método e, em 30 anos, a paisagem inteira da cidade vai ser modificada, não tenha dúvida. Mas, para isso, não podemos ficar esperando passivamente pela ação de governos. Hoje, qualquer pessoa pode ligar para a Eletropaulo e solicitar o sistema on grid, tornando-se assim um micro gerador de energia”, observa.

O retorno deste investimento ele estima ocorrer entre 5 e 6 anos, enquanto o sistema fotovoltaico chega a durar cinquenta. “É algo para os nossos netos usarem um dia”, reforça ele, lembrando que as primeiras instalações desse tipo datam da Segunda Grande Guerra, na Alemanha, e estão aí até hoje.

Na China, a preocupação com o assunto é tal, que uma outra barreira – esta de ordem eminentemente técnica – está em vias de cair: a fabricação de condicionadores capazes de funcionar com corrente contínua, ao invés de alternada, o que dispensará o inversor de frequência, atualmente um acréscimo considerável ao investimento inicial a ser feito numa instalação de ar condicionado com energia fotovoltaica, respeitando ainda como limite aparelhos monofásicos de até 36.000 BTUs.

Em suma, o ciclo a ser cumprido para o surgimento de um novo paradigma neste campo é resumido assim por este verdadeiro ativista da energia fotovoltaica: “o governo precisa incentivar a indústria, que – por sua vez- deve ter consciência e se mobilizar para isto, enquanto ao consumidor cabe cobrar dela essa atitude, dando origem com isso a uma ação realmente integrada, capaz de mudar as coisas de fato”, defende Marcelo.

“Já o microempresário de ar condicionado, eu diria até que tem dever moral de investir em energia solar, e não apenas porque certamente será um grande mercado daqui a alguns anos. Afinal, ele já está lá no telhado colocando a condensadora, é o mesmo cliente, é uma instalação conhecida, tão técnica quanto – ou até mais – o que deve levar o profissional da área a investir desde já em cursos e treinamentos, para se engajar em algo que também estará fazendo de bom para os seus descendentes e toda a humanidade”, arremata o diretor da Pindorama.

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