Presença feminina é estratégia de desenvolvimento para o setor

Entre desafios históricos e novas oportunidades, técnicas e engenheiras conquistam espaço, ampliam sua qualificação e fortalecem uma transformação que vai além das casas de máquinas

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Nos últimos oito anos, o setor brasileiro de HVAC-R tem vivenciado uma transformação consistente: o avanço da presença feminina em funções técnicas, operacionais e estratégicas. Se antes a participação das mulheres era pontual e restrita, hoje elas estão na linha de frente da instalação, manutenção, engenharia de projetos e gestão de serviços.

Esse crescimento acompanha movimentos mais amplos do mercado de trabalho e da indústria. Segundo estudos da McKinsey & Company, a presença de mulheres em cargos de liderança vem aumentando globalmente, ainda que em ritmo desigual. O relatório Women in the Workplace aponta avanços na ocupação de posições de confiança e gestão, mas também evidencia desafios estruturais, como o chamado “degrau quebrado”, a primeira grande barreira na promoção para cargos de liderança, e o persistente “teto de vidro”, que limita o acesso aos níveis mais altos de decisão.

No HVAC-R brasileiro, esses conceitos encontram reflexo direto na realidade. A entrada de mulheres em cursos técnicos e engenharias ligadas à climatização e refrigeração cresceu nos últimos anos, impulsionada por programas de capacitação, incentivo à formação profissional e maior visibilidade de referências femininas no setor. Ainda assim, a transição para cargos de supervisão, coordenação e direção continua sendo um ponto sensível.

Histórias de técnicas que começaram como auxiliares e hoje lideram equipes se multiplicam em todo o Brasil. Engenheiras assumem projetos de grande porte, participam de comissionamentos complexos e atuam em plantas industriais com a mesma segurança e competência que qualquer profissional do setor. Mais do que ocupar vagas, essas mulheres transformam a cultura do HVAC-R, imprimindo novos olhares sobre gestão, operação e relacionamento com clientes. São milhares de trajetórias bem-sucedidas em um mercado historicamente masculino e experiências que, somadas, certamente renderiam um livro de milhares de páginas. Nesta edição especial, destacamos algumas dessas histórias para homenagear todas as profissionais que fazem a diferença diariamente. A presença de cada uma delas fortalece ambientes mais colaborativos, contribuindo diretamente para a evolução do setor.

Mais do que ocupar vagas, essas mulheres transformam a cultura do HVAC-R

“Ao longo da minha trajetória, investir em formação e envolver-me de fato em situações desafiadoras buscando a solução de problemas foi fundamental para consolidar conquistas e avançar profissionalmente. A capacitação permite que a mulher do frio ocupe seu espaço com propriedade, seja na engenharia, na gestão ou no empreendedorismo, reduzindo desigualdades e ampliando oportunidades de crescimento sustentável. Cabe ressaltar que fóruns de capacitação também são ótimos espaços para expansão de networking ampliando nossa rede de contatos e suporte. Estabelecimento de rede de contatos e apoio é um hábito natural entre homens, que para a maior parte das mulheres, não se apresenta naturalmente como ferramenta de avanço na carreira”, afirma Joana Canozzi, Diretora de Serviços e Engenharia da Copeland.

“A presença feminina no HVAC-R brasileiro evoluiu de forma consistente nos últimos anos, ainda que em um ritmo mais gradual do que o desejado. Há cerca de oito anos, a participação das mulheres era quase invisível, especialmente nas áreas técnicas e de engenharia. Hoje, já vemos mulheres atuando em projetos, liderança, engenharia, manutenção e gestão, rompendo um estigma histórico de que o setor era exclusivamente masculino. Globalmente, mulheres continuam com participação reduzida em papéis técnicos e de engenharia, algo que se reflete em diversas indústrias, incluindo setores técnicos e industriais como o nosso”, acrescenta.

Da assistência técnica à engenharia de campo

“O principal desafio que eu encontrei no setor de refrigeração e climatização foi de competir tecnicamente com homens, que já estão a anos no mercado. Por isso, sempre digo que a formação técnica para nós, mulheres, é muito importante. Iniciei minha carreira como estagiária no setor de projetos de refrigeração em rack de compressores para supermercados. Em 2017, migrei para a área da refrigeração industrial, envolvendo sistemas de amônia aplicados em tanques de leite e câmaras frias de grande porte para redes de frigoríficos em nível Brasil. Ganhando experiência, atuei como projetista de câmaras frias e túneis de congelamento e, em maio de 2019, dei um passo ousado e abri minha própria empresa, a JDA Refrigeração, Climatização e Serviços, sediada em Belo Horizonte (MG)”, conta Jacqueline Albuquerque, Diretora da JDA.

Ela acrescenta que, “hoje, já temos muitas empresas de HVAC-R sendo conduzidas por mulheres com atuação em todas as áreas e utilidades. Nos últimos anos, o mercado de refrigeração e climatização vem despertando a atenção do público feminino com uma representação expressiva de mulheres que são destaques no setor, por grupos de profissionais, dentre outros. A união e o tratamento justo entre as mulheres promovem uma ação satisfatória para impulsionar e encorajar outras mulheres, descobrir novos talentos, resultando no aumento do número de profissionais a se destacarem no setor”.

O avanço feminino no HVAC-R também passa pela formação. Instituições de ensino técnico e entidades de classe ampliaram o acesso a cursos de refrigeração e climatização, abrindo portas para novas trajetórias profissionais. Programas de mentoria, treinamentos voltados à liderança e redes de apoio entre mulheres têm sido fundamentais para reduzir a evasão e fortalecer a permanência no setor.

O conceito do “degrau quebrado”, ajuda a compreender por que muitas mulheres encontram dificuldades já na primeira promoção para cargos de liderança. Quando essa etapa não acontece de forma equitativa, toda a estrutura acima se mantém desbalanceada. Romper esse ciclo exige políticas internas claras, metas de diversidade e avaliação baseada em desempenho e competência técnica.

“Diversos fatores têm impulsionado esse movimento, entre eles o maior acesso à informação e educação, mudanças estruturais e políticas públicas de proteção às mulheres bem como o fortalecimento das redes de apoio e de liderança engajadas com o tema promovendo o diálogo estruturado para a ampliação da visibilidade feminina no setor. Iniciativas de associações, universidades, entidades de ensino, ações de capacitação e a criação de redes de apoio e representatividade têm sido fundamentais para mostrar que o HVAC-R é um campo possível e promissor para as mulheres. Outro ponto a ser comentado inclui o aumento de programas educacionais e de desenvolvimento comportamental como mentorias voltados para processos estruturados de promoção, reparando o que chamam de broken rung (degrau quebrado), a lacuna no primeiro passo de ascensão profissional que historicamente retém mulheres nas posições técnicas e impede que avancem para cargos de gestão. Essa lacuna é particularmente aguda nas funções técnicas, onde apenas cerca de 52 mulheres são promovidas para gerente para cada 100 homens em posições equivalentes, segundo um novo estudo divulgado em 2025 pelo LinkedIn, ou seja, apenas 32% das posições de gerência no país são ocupadas por mulheres”, revela Joana.

Inclusão que gera resultado

Mais do que uma pauta social, a presença feminina no HVAC-R é uma estratégia concreta de desenvolvimento para o setor. Em um mercado que enfrenta escassez de mão de obra qualificada, ampliar a participação das mulheres significa expandir o potencial de talentos disponíveis e fortalecer o crescimento sustentável. A diversidade estimula inovação em um segmento que avança rapidamente com soluções inteligentes, eficiência energética, digitalização e sustentabilidade. Técnicas e engenheiras agregam novas perspectivas a desafios antigos, reforçam a organização dos processos, ampliam o olhar sobre segurança e elevam o padrão de atendimento, fortalecendo não apenas as empresas, mas todo o mercado brasileiro de HVAC-R.

Apesar dos avanços, ainda é necessário fortalecer e difundir políticas de valorização e redes de apoio, ampliar o acesso à formação técnica e criar estruturas que permitam conciliar carreira, maternidade, jornada dupla e empreendedorismo. A mulher do frio precisou, ao longo dos últimos anos, se estruturar com planejamento, rede de apoio e resiliência para equilibrar múltiplos papéis sem renunciar à excelência profissional. O próximo passo é tornar essas conquistas mais estruturais, garantindo que mais mulheres possam ingressar, permanecer e crescer no HVAC-R com reconhecimento e igualdade de oportunidades.

Como destaca Priscila Baioco, vice-presidente da ABRAVA e primeira mulher a ocupar esse cargo, “cada mulher que permanece e cresce no setor abre caminho para muitas outras. Nossa presença não é apenas representatividade, é competência, é resultado e é transformação. O setor já sente os efeitos dessa transformação. E, ao que tudo indica, ela está apenas começando”.


Resumen (español)
La presencia femenina en el sector brasileño de HVAC-R ha crecido en los últimos ocho años, con mujeres actuando en instalación, mantenimiento, ingeniería y gestión. Aunque informes como Women in the Workplace, de McKinsey & Company, y datos recientes de LinkedIn señalan avances globales, persisten barreras estructurales como el “degrau quebrado” y el “teto de vidrio”. En Brasil, profesionales como Joana Canozzi, de Copeland; Jacqueline Albuquerque, de JDA Refrigeração Climatização e Serviços; y Priscila Baioco, vicepresidenta de ABRAVA, destacan que la capacitación, las redes de apoyo y políticas internas claras son determinantes para ampliar el acceso de mujeres a cargos de liderazgo y fortalecer el desarrollo sostenible del sector.


Summary (English)
Female participation in Brazil’s HVAC-R sector has increased over the past eight years, with women taking on technical, operational, and leadership roles. Reports such as Women in the Workplace by McKinsey & Company and recent LinkedIn data indicate progress, but structural barriers like the “broken rung” and the “glass ceiling” remain. In Brazil, professionals including Joana Canozzi of Copeland, Jacqueline Albuquerque of JDA Refrigeração Climatização e Serviços, and Priscila Baioco, vice president of ABRAVA, argue that technical training, mentorship networks, and clear diversity policies are essential to expanding women’s access to management positions and supporting sustainable industry growth.